Nemátode-da-madeira-do-pinheiro Versão para impressão


A espécie Bursaphelenchus xylophilus (Steiner & Buhrer) Nickle, vulgarmente conhecida por nemátode-da-madeira-do-pinheiro (NMP) pertence ao Filo Nematoda onde estão, também, incluídas as lombrigas que parasitam o homem. 

Estes organismos invertebrados têm um corpo cilíndrico, em forma de fio de cabelo, com aproximadamente 1 mm de comprimento e, por isso, só são visíveis ao microscópico ótico. Este nemátode foi identificado como sendo o agente causador do declínio e morte de pinheiros, principalmente Pinus spp., e o seu aparecimento em Portugal ocorreu em 1999 e na Madeira dez anos depois. Devido aos efeitos nefastos que provoca em espécies de pinheiro e outras coníferas, B. xylophilus foi incluído na lista de organismos de quarentena da União Europeia (OEPP/EPPO), sendo a sua deteção em território Europeu de comunicação obrigatória. O nemátode é transmitido às árvores hospedeiras através de um inseto vetor do género Monochamus, em Portugal é a espécie M. galloprovincialis (Fig. 1). Devido às condições climáticas amenas da RAM e à existência de diversos microclimas, este problema tem vindo a intensificar-se e a doença a espalhar-se por toda a Ilha. 

Fig. 1 - Monochamus galloprovincialis. Larva (A) Fonte: ZubriK, 2008 e insecto adulto (B) Fonte: Touroult, 2016.

 

 

Biologia

Para a propagação da doença ocorrem as seguintes fases: a entrada do nemátode no corpo do inseto, o transporte do nemátode pelo inseto e a transmissão do nemátode para uma árvore sã. Na Primavera o inseto adulto, contendo nemátodes, procura rebentos novos de pinheiro para a sua alimentação ocorrendo a transmissão dos nemátodes para a árvore sã. Já no interior da mesma, estes microrganismos reproduzem-se e alimentam-se nas células epiteliais e do parênquima dos canais de resina causando a destruição das paredes celulares e a diminuição da produção de resina. Surgem os primeiros sintomas de doença que incluem a descoloração e murchidão das folhas e, por fim, a morte da árvore por falta de água, o que ocorre em apenas dois a três meses após a transmissão. São estas árvores doentes ou mortas recentemente que os insetos procuram para fazer a postura, passando o período de Inverno no interior do tronco da árvore. No final da Primavera seguinte os nemátodes agregam-se na madeira do tronco em redor dos insetos recém-formados, entrando no sistema respiratório dos adultos imediatamente antes destes emergirem, o que em Portugal geralmente ocorre entre Maio e Agosto embora possam ser encontrados insetos no terreno até finais de Novembro. Após a emergência o inseto voa à procura de pinheiros adultos saudáveis para se alimentar e o ciclo recomeça. Assim, aparentemente, a dispersão da doença está limitada à capacidade e ao período de voo do inseto ou seja de Maio a Novembro. Contudo na Madeira estudos recentes, realizados pelo Governo Regional, mostram que não existe interrupção no ciclo de vida do inseto o que tem dificultado o controlo das populações de insetos, de nemátodes e consequentemente a dispersão da doença.

 

Morfologia

O nemátode-da-madeira-do-pinheiro é pequeno (em média 1 mm de comprimento) e fino. Possui uma região cefálica alta com 6 lábios, estilete visível, bolbo médio do esófago bem desenvolvido com uma largura próxima à largura do corpo (Fig. 2). A fêmea apresenta uma prega na zona vulvar que se prolonga para a parte posterior do corpo. A cauda da fêmea é subcilíndrica e na maior parte das populações de terminação arredondada. Ocasionalmente, as fêmeas podem ter uma pequena extensão na parte terminal da cauda designada por mucrão. Os machos possuem a cauda com uma grande curvatura dorsal, apresentando na extremidade da mesma uma pequena bursa terminal. Possuem espículas robustas com um ápex grande e arredondado e um rostro prominente e extremamente bicudo. A ponta da espícula mostra uma projeção em forma de disco. Esta espécie é morfologicamente muito semelhante à espécie B. mucronatus, sendo possível distingui-las apenas através de testes moleculares.

Fig. 2 - Carateres morfológicos importantes para a identificação de B. xylophilus (A): 1 cabeça; 2 estilete; 3 bolbo médio do esófago; 4 bolbo basal do esófago; 5 prega vulvar; 6 vulva; 7 cauda da fêmea; 8 terminação da cauda arredondada; 9 cauda do macho; 10 bursa; 11 espículas. Aspeto do corpo (B), parte anterior (C), vulva da fêmea (D) e espículas do macho (E). (Barra B 300 µm; C e D 30 µm e E 50 µm).

 

Hospedeiros e sintomas

Várias coníferas como abetos, cedros, larix, piceas, pinheiros, pseudotsugas e tsugas são consideradas hospedeiras suscetíveis do NMP. Os primeiros sintomas externos óbvios da presença de nemátodes no pinheiro são o amarelecimento e a murchidão das agulhas. A murchidão pode aparecer pela primeira vez em apenas um ramo, apesar de toda a árvore mais tarde poder apresentar sintomas. Há uma diminuição da produção de resina como reação à ferida na árvore, diminuição da transpiração das folhas que depois cessa completamente, os ramos ficam mais quebradiços do que o habitual e a árvore acaba por morrer (Fig. 3). Contudo, é de salientar que este quadro de sintomas é idêntico ao declínio provocado por outras doenças ou pragas e que a presença de nemátodes só pode ser confirmada através de análises laboratoriais efetuadas em amostras de madeira recolhidas em árvores com sintomas.

Fig. 3 - Sintomas em pinheiro da presença de Bursaphelenchus xylophilus.

 

Curiosidades

A existência do inseto vetor do NMP na Madeira era já conhecida desde 1996, mas o nemátode só foi detetado na Região durante o Verão de 2009, no Palheiro Ferreiro, Concelho do Funchal pelo LQA e o resultado confirmado em Laboratórios referenciados por meio de análises moleculares. Mais tarde esta espécie foi encontrada em São Vicente e agora sabe-se que está espalhada por toda a Ilha. Com a entrada do nemátode na RAM, verificou-se um aumento extraordinário da população do inseto vetor e, posteriormente, da população de nemátodes. Devido às temperaturas anuais amenas e à existência de vários microclimas, sabe-se que o tempo durante o qual os insetos se mantêm ativos é muito maior na Madeira relativamente a Portugal Continental. De facto, na Madeira os estudos parecem demonstrar que o inseto persiste voando durante praticamente todo o ano, apesar de nos meses de Janeiro só aparecer nos concelhos mais quentes da Ilha. Por outro lado, os insetos capturados guardados a -20ºC para análise, durante mais de meio ano, quando analisados contêm ainda nas traqueias, nemátodes vivos, o que mostra bem a capacidade de sobrevivência desta espécie. Atualmente apesar do grande número de áreas afetadas por este problema ainda não foi encontrado nenhum meio de luta verdadeiramente eficaz, sendo o procedimento habitual o corte dos pinheiros infetados e principalmente, a captura em massa do inseto vetor através de uma rede de armadilhas (aproximadamente 400 armadilhas) que foram espalhadas por toda a Ilha pelos Serviços Florestais do Governo Regional (Fig. 6). Neste momento as principais preocupações prendem-se com o facto de o nemátode ter a capacidade de parasitar outras árvores resinosas.

Fig. 6 - Armadilhas colocadas pelos Serviços Florestais para a captura do inseto vetor de Bursaphelenchus xylophilus.

Mapa de distribuição

Mapa distribuicao

Distribuição na Ilha da Madeira

Fig. 5 - Representação de alguns pontos dos mais de 300 prospetados na Ilha da Madeira em que foram encontrados Bursaphelenchus xylophilus associados ao inseto vetor.

 

 

Referências bibliográficas

Burgermeister W.; Metge K.; Braasch H.; Buchbach E. 2005. ITS-RFLP patterns for differentiation of 26 Bursaphelenchus species (Nematoda: Parasitaphelenchidade) and observations on their distribution. Russian Journal of Nematology, 13, 29–42.

CABI. 2016. Bursaphelenchus xylophilus (pine wilt nematode) in Invasive Species Compendium, Wallingford, UK: CAB International, Publicado em 30-11-2015, http://www.cabi.org/isc/datasheet/10448, acedido a 11-01-2016.

Fonseca L.; Cardoso J.M.S.; Lopes A.; Pestana M.; Abreu F.; Nunes N.; Mota M., Abrantes I. 2012. The pinewood nematode, Bursaphelenchus xylophilus in Madeira Island. Helminthologia, 49:96.103.

OEPP/EPPO. 2013. Bulletin OEPP/EPPO Bulletin 43, pp. 105-118.

Sousa E.; Naves P.; Bonifácio L.; Bravo M.A.; Penas A.C.; Pires J.; Serrão M. 2002. Preliminary survey for insects associated with Bursaphelenchus xylophilus in Portugal. Bulletin OEPP/EPPO Bulletin, 32, 499–502.

 

 

Foto de grupo

Alunos da disciplina de Zoologia Comparada, do curso de Biologia da Universidade da Madeira sob orientação da Prof. Doutora Margarida Pestana

Alunos da disciplina de Zoologia Comparada, do curso de Biologia da Universidade da Madeira sob orientação da Prof. Doutora Margarida Pestana


Ana Rodrigues, Bruno Macedo, Carlos Silva, Diego Dieste, Elisa Teixeira, Hugo Gama, José Reis, Lydia Orfãos, Ma-falda Marques, Inês Leite, Pedro Álvarez