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Charonia Lampas

É o maior molusco gastrópode das águas do arquipélago da Madeira, podendo atingir 32 cm de altura da concha. É uma espécie que ocorre desde os 0 até os 700 metros de profundidade. Vive em fundos rochosos ou detríticos. Na sua dieta alimentar estão incluídos principalmente os ouriços-do-mar e estrelas-do-mar. Devido a isso, desempenha um papel ecológico importante, por exemplo, no controlo das populações do ouriço de espinhos compridos (Diadema antillarum). Também consome bivalves segregando ácido  aspártico e sulfúrico de forma a dissolver a concha dura. É um animal ovíparo, com os sexos separados, cuja fecundação é interna. A fêmea deposita os ovos em cápsulas cilíndricas aderidas à rocha  às quais guarda durante várias semanas. As larvas são planctónicas.

 

 

Identificação

foto3Concha de forma cónica, com nove voltas, das quais a última é muito maior que as outras. As voltas têm nódulos e costilhas que nos indivíduos mais velhos são menos salientes. A cor da concha é esbranquiçada com manchas castanhas. O canal sifonal é curto e o labro é branco  com dentes individualizados sobre manchas castanhas. Linhas de sutura bem marcadas. Opérculo quitinoso, estriado, oval e castanho escuro. Abertura oval, grande, e duas bandas negras características nos tentáculos cefálicos. Corpo de cor vermelho-alaranjado. Distingue-se da congénere Charonia variegata (Lamarck, 1816) (que também ocorre nas águas do arquipélago da Madeira) pelo facto desta última apresentar a concha mais comprida e delgada, sem nódulos, e pelo labro ter dentes brancos dispostos aos pares sobre manchas castanhas.

 

 

 

 

Distribuição

new-2rtrEsta espécie tem uma distribuição ampla. É nativa do Atlântico Nordeste desde as ilhas açorianas, Madeira, Canárias e Cabo Verde até ao litoral da Bélgica, ilhas do Canal, ocorrendo também pontualmente em algumas áreas da costa oeste de África e Brasil. Também é nativa da costa sul-africana e do sudoeste do Pacífico, nomeadamente Nova Zelândia, ilhas Kermadec e Norfolk , sul da Austrália e no Pacífico Norte, designadamente no Japão, Taiwan e Vietname. Devido à sua distribuição tão ampla, várias subespécies foram descritas, das quais: Charonia lampas pustulata Euthyme, 1889, na África do Sul; Charonia lampas rubicunda  Perry, 1811, na Austrália;  Charonia lampas sauliae  Reeve, 1884,  no Pacífico Norte; Charonia lampas capax  Finlay, 1927, na Nova Zelândia e Charonia lampas lampas (Linnaeus, 1758), no Atlântico Nordeste e Mediterrâneo.

 

 

Curiosidades

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É uma espécie comestível e a concha deste animal é muito cobiçada pelos coleccionadores e não só, devido à sua beleza decorativa. No entanto, esta procura intensiva colocou esta espécie numa situação vulnerável. Por exemplo, no Mediterrâneo esta espécie está regulamentada ao abrigo do Anexo II da Convenção de Berna, onde está com o estatuto de espécie protegida.
Na ilha da Madeira, este búzio conheceu diversas aplicações no passado como instrumento de sopro de longo alcance. Para emitir o som grave característico, o búzio tem de ser perfurado na extremidade do vértice da concha. Por exemplo, o levadeiro chamava as pessoas através do som do búzio quando o giro da água chegava à sua fazenda; era usado pelos marinheiros como instrumento acústico para aviso de partida e chegada das embarcações, recepção de carga, etc; na Ponta do Pargo servia para prevenir as viagens dos barcos; em Machico o seu som acordava os pescadores para a faina de pesca; no Monte anunciava a presença do leiteiro e no Santo da Serra era o despertador das pessoas que levantavam-se de madrugada para ir às tradicionais missas do Parto. Actualmente este hábito de utilizar este búzio como instrumento de sopro caiu em desuso, no entanto, há quem consuma este animal.


ovos_charoniaTal como outros animais marinhos que podem se tornar tóxicos para o consumo humano esta espécie também pode apresentar toxicidade. Há pelo menos dois casos publicados de intoxicação pelo consumo deste marisco capturado na Europa. Análises ao animal consumido confirmaram que, após sintomas de intoxicação do paciente, o animal continha uma neurotoxina conhecida por tetraodotoxina. Os autores consideram que a presença desta toxina neste animal pode dever-se ao aquecimento global que induz ao crescimento e expansão para outras áreas da microalga que produz esta toxina.

 

 

 

 

Referências bibliográficas



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Mapa de distribuição


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Referências bibliográficas

 

-Wunderlich, J. 1991. Die Spinnen-Fauna der Makaronesischen Inseln. Taxonomie, Ökologie, Biogeographie und Evolution. Beiträge zur Araneologie. 1: 1-619.