28 Julho 2021
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Fig. 1 – Pormenor dos frutos de tilA família das lauráceas encontra-se, na Madeira, representada por 4 espécies arbóreas, o til (Ocotea foetens (Aiton) Benth. & Hook. f.), é uma delas.

Mundialmente, o género Ocotea conta com cerca de 320 espécies, quase todas neotropicais. O nome do género deve-se a Jean Baptiste Christophore Fusée Aublet, farmacêutico, botânico e explorador francês do século XVIII, que provavelmente latinizou o nome vernacular usado na Guiana Francesa, aiou-hou-ha

Na Macaronésia, este género está representado na ilha da Madeira e nas Canárias, pela espécie Ocotea foetens.

Fig. 2 – Pormenor dos frutos e da folhagem do til

 

 

Identificação

Fig. 3 – Pormenor da mudança de coloração na folhagem do til

Árvore grande a muito grande, podendo excecionalmente atingir 40 m de altura, sempre-verde, de tronco cinzento e liso; copa densa, frondosa, de piramidal a arredondada. Folhas alternadas, coriáceas, verde-escuras (quando envelhecem algumas passam a vermelhas ou, menos frequentemente, a alaranjadas ou amareladas), brilhantes, ovado-elípticas, acuminadas, com 6-18 x 2-7 cm, glabras na página superior; na página inferior, podem ser observadas depressões glandulares, em especial na base da nervura principal, revestidas de pelos compridos. As inflorescências, dispostas em panículas, são constituídas por pequenas flores branco-esverdeadas a amareladas. Bagas negras (quando maduras), elipsoidais, até 1,8-2 cm, envolvidas até o primeiro terço por uma cúpula caraterística (assemelhando-se ao fruto do carvalho).  

Os frutos do til fazem parte, juntamente com os de outras lauráceas, da dieta do pombo-trocaz (Columba trocaz Heineken, 1829), ave endémica da Madeira, sendo esta a responsável pela sua disseminação na Laurissilva.

Por vezes podemos observar nos seus ramos, pequenas intumescências (tumores) provocadas por uma infeção bacteriana.

Fig. 4 – Pormenor das depressões glandulares na página inferior das folhas de til

 

  

Distribuição

Fig. 5 – Pormenor das flores de til

Na ilha Madeira esta árvore para além de ser frequente na Laurissilva, dos 600 aos 1500 m de altitude, constituindo o elemento arbóreo dominante na Laurissilva temperada do til, é também utilizada no embelezamento de ruas (por exemplo, na Rua das Virtudes), jardins públicos e privados. 

No arquipélago das Canárias, o til ocorre naturalmente nas ilhas El Hierro, La Palma, La Gomera, Tenerife, Gran Canaria. Nos Açores possui um estatuto de naturalizada, ocorrendo nas ilhas das Flores, Faial, Terceira, São Miguel e Santa Maria.

 

 

 

Curiosidades

Fig. 6 – Intumescências nos ramos de til

Segundo a Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas, da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a espécie Ocotea foetens (Aiton) Benth. & Hook. f. é considerada como “Quase Ameaçada”, sendo os incêndios florestais a maior ameaça à sua sobrevivência.

As plantas do género Ocotea produzem óleos essenciais, ricos em cânfora e safrol, com alguma importância económica. É o caso das espécies O. cymbarum, O. caudata, O. pretiosa e O. usambarensis que são exploradas comercialmente com esse propósito. Outras espécies, de rápido crescimento, são importantes na produção de madeira, é o caso de O. puberula da América Central e do Sul, e O. bullata, nativa da África do Sul. A espécie O. foetens, apresenta 3 tipos de madeira (branca, alaranjada e negra), de acordo com a idade dos exemplares ou conforme se trabalha no alburno ou no cerne da árvore. A melhor madeira de til provém do cerne, embora a sua formação seja muito tardia e tenha cheiro desagradável (que desaparece com o passar do tempo). Trata-se de uma madeira moderadamente dura, de textura bastante homogénea e grão moderadamente fino. Vieira (1992) relata que, apesar de alguma dificuldade no seu manuseio, a madeira de til presta-se para trabalhos de marcenaria fina e o seu uso, hoje, é praticamente em mobiliário, com aplicações em embutidos. Antigamente faziam-se com madeira de til, algumas peças de uso agrícola e doméstico, talhadas em grossos troncos ou ramos, tais como pequenos lagares, amassadeiras, alguidares, vasilhame para vinicultura, banheiras, etc. Segundo o mesmo autor, é frequente no norte e em especial em Santana, aproveitarem-se os tis, sobretudo os mais próximos das habitações, como fonte de alimentação do gado. Sendo frequente, aliás, ouvir entre os agricultores, que o til é uma “fartura de comer”. O til também foi usado para construir os primeiros lagares (às vezes de uma só peça escavada), arados, as principais peças dos teares, na construção dos moinhos de vento e das atafonas, mais frequentes no Porto Santo. Em tempos idos, a madeira do til (juntamente com a da urze) produzia bom carvão vegetal, utilizado pela indústria do açúcar, numa altura em que não havia eletricidade e não se explorava, todavia, o petróleo como combustível.

Na medicina popular, a infusão das folhas do til é usada em lavagens do corpo, para comichão (urticária).

Na toponímia madeirense encontramos sítios com nomes alusivos à existência/presença desta laurácea, como por exemplo, o sítio da Achada do Til, na freguesia de São Vicente; a Quinta do Til, a Rua, Rua Nova, Travessa e o Beco do Til, na cidade do Funchal, assim como o Caminho e a Vereda da Cova do Til, e o sítio do Til na freguesia da Ribeira Brava.

 

 

Referências bibliográficas

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A nível da Macaronésia, Laurobasidium lauri está presente nas ilhas da Madeira e das Canárias onde parasita o loureiro (Laurus novocanariensis). Também está devidamente documentada a ocorrência desta espécie de fungo na Corunha (Espanha), parasitando árvores de Laurus nobilis e em Portugal Continental (Minho, Beira Litoral e Estremadura) a parasitar a mesma espécie de árvore
 

 
Taxonomia
Reino: Plantae
Divisão: Magnoliophyta
Classe: Magnoliopsida
Ordem: Laurales
Família: Lauraceae
Género: Ocotea
Espécie: Ocotea foetens (Aiton) Benth. & Hook. f.
Autor desta ficha
Juan José Gonçalves Silva Juan José Gonçalves Silva
Conservador de Botânica e Responsável pelo Herbário
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