3 Agosto 2021
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Anémona-gigante Versão para impressão Enviar por E-mail

Anémona-gigante. Coloração típica da Madeira e Canárias. Fotografia: Pedro Vasconcelos, Madeira

A anémona-gigante, Telmatactis cricoides, é uma das maiores e mais atrativas anémonas do Atlântico oriental, com uma enorme variedade de cores, vivendo associada a 19 espécies diferentes de crustáceos.

As anémonas e os corais, organismos sésseis, constituem o grupo mais abundante dos cnidários - os antozoários – que com mais de 6000 espécies conhecidas, distribuem-se desde a zona entre marés até aos 6000 metros de profundidade. Assim como as águas-vivas (cnidários da classe Scyphozoa, de vida livre), as anémonas possuem a capacidade única de defender-se dos predadores e capturar as suas presas com recurso a células especializadas, os cnidócitos, que podem causar paralisia ou morte de outras espécies marinhas e queimaduras no homem.

A espécie de anémona-gigante das ilhas da Madeira, Selvagens e Canárias evidencia características peculiares, não observadas noutros locais da sua área de distribuição, podendo atingir dimensões acima do normal - gigantismo - e apresentar outros padrões de coloração. Apesar destas evidências, não possui características morfológicas distintivas que permitam considerá-la uma nova espécie para a ciência.

 

Identificação


Forma dos tentáculos bem visível. Fotografia: Pedro Vasconcelos, Madeira

A anémona-gigante T. cricoides é um pólipo solitário - organismo que vive fixo ao substrato, sem forma de vida livre. Distingue-se facilmente pela forma claviforme e lisa dos seus tentáculos (podem chegar a 80), dispostos concentricamente à volta da boca em várias coroas, sendo os da zona exterior mais curtos. O disco oral pode ter diâmetros entre 10 e 20 cm. Possui uma coluna larga e cilíndrica. É uma espécie com um elevado polimorfismo cromático. Num estudo realizado nas ilhas da Madeira e Canárias foram encontrados 25 padrões de coloração diferentes, sendo os mais frequentes o castanho dourado, castanho avermelhado e o cor-de-rosa e branco. Cada indivíduo não muda de cor ao longo da vida, nem foi observada uma correlação entre a cor e a profundidade, sugerindo que a cor não se altera devido à intensidade luminosa (Wirtz, 1996).


Nomes vulgares:
Anémona-gigante (PT), telmatactis (ES), club-tipped or blunt-tentacled sea anemone (UK), anémone à massues ou américaine (FR), keulenanemone (DE)

 

 

Biologia e distribuição

Telmatactis cricoides em concavidade rochosa. Fotografia: Pedro Vasconcelos, Madeira

A anémona-gigante é uma espécie muito comum nos arquipélagos macaronésicos da Madeira e das Canárias. Está também presente em Cabo Verde e aparentemente está ausente nos Açores. Tem uma distribuição ampla e descontínua na zona tropical do Oceano Atlântico ocidental (Mar das Caraíbas, Bermudas, Brasil (de Fortaleza até ao Rio de Janeiro), Arquipélago de São Pedro e São Paulo e ilha de Fernando de Noronha) e do Atlântico oriental (Madeira, Canárias, Cabo Verde, Senegal, São Tomé e Príncipe e Ascensão e Santa Helena). Também presente no Mar Mediterrâneo central e oriental.
Pode ser encontrada em locais afastados da luz solar direta, concavidades rochosas, grutas e por baixo de pedras, desde o infralitoral ao circalitoral, dos 0 aos 60 metros de profundidade. A anémona-gigante tem uma longevidade até 12 anos.

Boca e coroa de tentáculos em pormenor. Fotografia: Pedro Vasconcelos, Madeira

É uma espécie predadora, oportunista, que se alimenta principalmente de zooplâncton, pequenos camarões e peixes, que captura e conduz para a boca (único orifício que possui, também com função excretora), utilizando os tentáculos e os cnidócitos. Estes são células especializadas que estão localizadas em maior número nos tentáculos e que injetando um líquido tóxico através duma cápsula tipo arpão, o nematocisto, causam paralisia ou morte das presas. Algumas espécies são imunes aos cnidócitos e vivem em associação simbiótica com a anémona-gigante. Em estudos realizados nas ilhas da Madeira, Canárias, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe foram observadas 19 espécies de crustáceos diferentes a viver associadas a esta anémona, que representam a segunda maior comunidade simbiótica registada até à data. Nas ilhas da Madeira e Canárias, 86% das anémonas estudadas tinham crustáceos simbiontes, sendo os mais comuns o camarão-das-anémonas (Thor amboinensis) e o camarão-listado (Lysmata grabhami). A maior vantagem destas associações é a defesa contra os predadores, sendo ainda desconhecido o mecanismo usado pelos crustáceos para evitarem os cnidócitos (Wirtz, 1997; Wirtz & D’Udekem D’Acoz, 2008; Wittmann, 2013). Peixes e equinodermes não foram observados associados a T. cricoides.

Em associação com o camarão-das-anémonas. Fotografia: Arturo Boyra, Madeira

 


Curiosidades

Coroa interior de tentáculos. Fotografia: Pedro Vasconcelos, Madeira

A anémona-gigante apresenta inúmeras curiosidades, algumas já referidas, como sejam as associações com 19 espécies diferentes de crustáceos, que constituem a segunda maior comunidade simbiótica conhecida, a coloração altamente variável e dimensões invulgares, podendo uma única área geográfica (Madeira e Canárias) conter 25 variedades de cor diferentes e indivíduos duas vezes maiores que o normal (gigantismo).

Como evento isolado, não registado anteriormente, foi observado na costa norte da ilha de Gran Canaria uma anémona-gigante de 16 cm a alimentar-se dum juvenil de tubarão-anjo (Squatina squatina) com 28 cm. Como acontecimento único, não podemos afirmar que esta espécie de tubarão ou outra integre a dieta normal da anémona (Narvaez et. al., 2006), mas não deixa de ser curioso.

 T. cricoides em simbiose com o caranguejo-aranha. Fotografia: Pedro Vasconcelos, Madeira

 

 

 

Bibliografia

Den Hartog, J.C. 1995. The genus Telmatactis Gravier, 1916 (Actiniaria: Acontiaria: Isophelliidae) in Greece and the eastern Mediterranean. Zoologische Mededelingen Leiden 69: 153-176.

Fransen, C.H.J.M. & Wirtz, P. 1997. Contribution to the knowledge of decapod crustaceans from Madeira and the Canary Islands. Zoologische Mededelingen Leiden 71 (19): 215-230.

Narvaez, K., Osaer, F. & Haroun, R. Are juvenile angel sharks Squatina squatina a frequent prey to the sea anemone Telmatactis cricoides? 10th European Elasmobranch Association Science Conference. Zoological Institute & Museum, University of Hamburg. 11-12 November 2006.

Ocaña, O. & Den Hartog, J.C. 2002. A catalogue of actiniaria and corallimorpharia from the Canary Islands and from Madeira. Arquipélago. Life and Marine Sciences 19A: 33-54.

Saldanha, L. (1995). Fauna Submarina Atlântica. Edição revista e aumentada. Publicações Europa América, Lisboa: 364pp.

Wirtz, P. 1995. Unterwasserführer Madeira Kanaren Azoren Niedere Tiere (Underwater guide Madeira, Canary Islands, Azores invertebrates). Stuttgart, S. Naglschmid Verlag. 247 pp.

Wirtz, P. 1996. The sea anemone Telmatactis cricoides from Madeira and the Canary Islands: size frequency, depth distribution and colour polymorphism. Arquipélago. Life and Marine Sciences 14A: 1-5. Ponta Delgada.

Wirtz, P. 1997. Crustacean symbionts of the sea anemone Telmatactis cricoides at Madeira and the Canary Islands. Journal of Zoology, London 242: 799-811.

Wirtz, P. & D’Udekem D’Acoz, C. 2008. Crustaceans associated with Cnidaria, Bivalvia, Echinoidea and Pisces at São Tomé and Príncipe islands. Arquipélago. Life and Marine Sciences 25: 63-69.

Wittmann, K. J. 2013. Mysids associated with sea anemones from the Tropical Atlantic: descriptions of Ischiomysis new genus, and two new species in this taxon (Mysida, Mysidae, Heteromysinae). Crustaceana 86 (4): 487-506.

 
 
Taxonomia
Império: Eukariota
Reino: Animalia
Filo: Cnidaria
Classe: Anthozoa
Ordem: Actiniaria
Família: Isopheliidae
Género: Telmatactis
Espécie: T. cricoides (Duchassaing, 1850)
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