3 Agosto 2021
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Fig1 - Larva L3 de Anisakis simplex observada à lupa

Os nemátodes anisaquídeos são vermes parasitas de peixes e mamíferos marinhos. Nos peixes vivem os estádios larvares, L3, nas vísceras e na musculatura, enquanto que no intestino dos mamíferos marinhos, se encontram os estádios larvares L4 e os adultos. 

No Arquipélago da Madeira, várias espécies de peixe são parasitadas por larvas L3, de nemátodes do género Anisakis Dujardin, 1845. Duas espécies, nomeadamente Anisakis nascettii Mattiucci, Paoletti, Webb 2009 e A. simplex s.s. Rudolphi 1809, são as mais prevalentes, muito embora ocorram adicionalmente outras espécies de Anisakis (Costa et al., 1996, 2003; Pontes et al., 2005).

 

Identificação

Fig2 - Extremidade anterior da larva L3 de A. simplex evidenciando o poro excretor anterior (pe) e o dente perfurador (de). (barra é 100 µm)As larvas L3 de Anisakis nascettii e A. simplex s.s. apresentam um comprimento total de 9 a 36 mm, são de cor esbranquiçada e forma cilíndrica (Fig. 1). A sua extremidade anterior possui um dente perfurador, e a sua extremidade caudal apresenta uma espícula, também chamada de mucron (Fig. 2 e 3). Quando examinadas à lupa e microscópio óptico, observa-se o ventrículo esofágico mais longo do que largo, característico dos nemátodes do género Anisakis (Fig. 4). Para a correcta identificação da espécie é necessário recorrer a extracção do seu DNA ribossomal, e analisar as sequências ITS (internal transcribed spacers) uma vez que, com base na morfologia das larvas não é possível reconhecer a espécie. As larvas L3 podem encontrar-se livres na cavidade visceral dos peixes, ou encapsuladas na parede do estômago, intestino e gónadas (Fig. 5). Algumas larvas perfuram o músculo e aí permanecem enroladas.

     

Biologia e distribuição

Fig3 - Região do ventrículo esofágico (ve) das larvas L3 de Anisakis simplex. (barra é 200 µm)

O ciclo de vida destes anisaquídeos é bastante complexo, envolvendo pequenos crustáceos como hospedeiros intermediários, onde se encontram as larvas L1 e L2, cefalópodes e peixes como hospedeiros de transporte (paraténicos), parasitados pelas larvas L3, e mamíferos marinhos como hospedeiros definitivos, onde as larvas passam a L4 e adultos, com sexos separados. A fecundação dá-se no tracto intestinal do hospedeiro definitivo, e os ovos são posteriormente libertos junto com as fezes do hospedeiro, sendo então ingeridos pelos crustáceos planctónicos. No caso de Anisakis simplex s.s., os hospedeiros definitivos são golfinhos e baleias, entre eles o golfinho nariz de garrafa, Tursiops truncatus e a baleia piloto, Globicephala melas (Klimpel et al. 2004). Por outro lado o A. nascettii tem como hospedeiros definitivos as baleias de bico do género Mesoplodon (Ziphiidae) (Pontes et al. 2005; Mattiucci et al. 2009). A distribuição geográfica de A. simplex s.s. é ampla, encontrando-se este nemátode parasitando hospedeiros no oceano Atlântico, Mediterrâneo, Mar do Norte, Mar Báltico e oceano Pacífico. Por sua vez, larvas L3 de A. nascettii foram pela 1ª vez encontradas no Arquipélago da Madeira (oceano Atlântico) no peixe-espada preto, (Aphanopus carbo) e na cavala, (Scomber colias), tendo sido os adultos recolhidos do intestino de baleias de bico na Nova Zelândia (Pacifico Sul). Este facto pressupõe que, a distribuição geográfica deste nemátode é também extensa nos oceanos Atlântico e Pacífico.

 

 

Alimentação

Fig4 - Extremidade caudal de larva L3 de Anisakis simplex mostrando o mucron ou espicula caudal. (barra é 100 µm)

Os nemátodes anisaquideos, vivem como parasitas, alimentando-se dos fluidos estomacais e intestinais dos seus hospedeiros. Devido ao facto de se fixarem na parede do estômago e intestino através do seu dente perfurador, e de muitas vezes invadirem a musculatura dos peixes, podem provocar lesões com alguma gravidade.

 

 

 

 

 

Curiosidades

Fig5 - Vísceras de peixe-espada preto, Aphanopus carbo, parasitadas por larvas L3 de Anisakis spp.

O género Anisakis Dujardin 1845, inclui um grande nº de espécies, parasitas de peixes e mamíferos marinhos. Apesar de a primeira espécie ter sido descrita no séc. XIX, (Anisakis simplex Rudolphi 1809) só nos últimos 20 anos foi possível começar a identificar as diversas espécies, recorrendo a técnicas genéticas e moleculares. Actualmente no género Anisakis estão descritas 10 espécies distintas (Mattiucci et al. 2014). Estes parasitas são muito bem sucedidos, desenvolvem-se através de ciclos de vida complexos e não são patogénicos para os seus hospedeiros de transporte, de modo a poderem alcançar os seus hospedeiros definitivos, onde atingem a maturidade sexual e se reproduzem. São assim óptimos indicadores de biodiversidade, uma vez que, para serem bem sucedidos, necessitam da presença de diversos outros seres vivos no ecossistema, de modo a completarem o seu desenvolvimento. São considerados parasitas generalistas, pois parasitam espécies distintas de hospedeiros, sendo que em muitas delas atingem prevalências bastante elevadas da ordem de 90%. Larvas L3 de Anisakis nascettii, parasitam vários peixes marinhos, como exemplo o peixe-espada preto, (Aphanopus carbo), a cavala do Atlântico, (Scomber colias) e o chicharro (Trachurus picturatus) no Arquipelágo da Madeira. Além de indicadores de biodiversidade, Anisakis spp. podem ser usados como indicadores biológicos de stocks dos peixes, como já foi demonstrado num estudo levado a cabo no carapau (Trachurus trachurus), do Atlantico Norte e Mediterrâneo. Nesse estudo verificou-se que os padrões biogeográficos das larvas de Anisakis spp. do carapau, sugeriam a existência de stocks distintos no Mediterrâneo e Atlântico (Mattiucci et al. 2008).

 

Referências bibliográficas

Costa G, Eiras JC, Chubb J, Mackenzie K, Berland B (1996). Parasites of the black scabbard fish, Aphanopus carbo Lowe, 1839 from Madeira. Bulletin of the European Association of Fish Pathologists 16, 13- 16.

Costa G, Pontes T, Mattiucci S, D’Amélio S (2003). The occurrence and infection Dynamics of Anisakis larvae in the black-scabbard fish, Aphanopus carbo, chub mackerel Scomber japonicus and oceanic horse mackerel Trachurus picturatus from Madeira, Portugal. Journal of Helminthology 77, 163-166.

Klimpel S, Palm HW, Rückert S, Piatkowski U (2004). The life cycle of Anisakis simplex in the Norwegian Deep (northern North Sea). Parasitology Research 94, 1-9.

Mattiucci S, Farina V, Campbell N, Mackenzie K, Ramos P, Pinto AL, Abaunza P, Nascetti G (2008). Anisakis spp. larvae (Nematoda: Anisakidae) from Atlantic horse mackerel: Their genetic identification and use as biological tags for host stock characterization. Fisheries Research 89, 146-151.

Mattiucci S, Paoletti M, Webb SC (2009). Anisakis nascettii n. sp. (Nematoda: Anisakidae) from beaked whales of the southern hemisphere: morphological description, genetic relationships between congeners and ecological data. Systematic Paarsitology 74, 199-217.

Mattiucci S, Cipriani P, Webb SC, Paoletti M, Marcer F, Bellisario B, Gibson DI, Nascetti G (2014). Genetic and morphological approaches distinguish the three sibling species of the Anisakis simplex complex, with a species designation as Anisakis berlandi n. sp. for A. simplex sp. C (Nematoda: Anisakidae). Journal of Parasitology 100, 199-214.

Pontes T, D’Amélio S, Costa G, Paggi L (2005). Molecular characterization of larval anisakid nematodes from marine fishes of Madeira by a PCR-based approach, with evidence for a new species. Journal of Parasitology 91, 1430-1434.

 

 

 
Taxonomia
Império: Eukariota
Reino: Animalia
Filo: Nematoda
Classe: Secernentea
Ordem: Ascaridida
Família: Anisakidae
Género: Anisakis
Espécie: A. nascettii e A. simplex s.s.
Autor desta ficha
Graça Costa Graça Costa
Professor auxiliar c/agregação - Universidade da Madeira
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