3 Agosto 2021
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Microalgas tóxicas Versão para impressão Enviar por E-mail

Aspeto macroscópico de um bloom de Ostreopsis sp.; Madeira/Foto: Manfred Kaufmann

De um modo geral, as microalgas planctónicas são de extrema importância nos oceanos, servindo de alimento vegetal para muitas espécies animais, tendo em conta que constituem a base da teia alimentar marinha.


Através do processo da fotossíntese, são também responsáveis pela produção de cerca de 50% do oxigénio que existe a cada momento na nossa atmosfera! Entre as mais de cinco mil espécies de microalgas, existem poucas centenas que, em determinadas condições, podem crescer de forma explosiva, proliferando de tal modo que atingem milhões de células por litro de água. São os blooms de microalgas (em inglês: algal blooms), que, inclusivamente, podem tornar a cor da água do mar de acastanhada a vermelha: eis as chamadas ‘marés vermelhas’. Dentro dessas, há cerca de 80 espécies que podem produzir toxinas, entre as quais, as biotoxinas mais potentes conhecidas.

Identificação

Dado o tamanho reduzido das microalgas, o auxílio de um microscópio é indispensável para a sua identificação. As espécies dos géneros Ostreopsis e Gambierdiscus possuem placas celulósicas, divididas por uma depressão transversal, formando assim uma parte superior (epiteca) e uma parte inferior (hipoteca). Possuem dois flagelos, um transversal e outro longitudinal, que servem para a movimentação das células. O número, a forma e a disposição das placas são carateres de identificação de géneros e espécies. Em ambos os géneros, as células são anterior-posteriormente comprimidas e observadas em vista apical ou antiapical. A epiteca e hipoteca possuem mais ou menos o mesmo tamanho.

As espécies do género Ostreopsis são distinguidas pela forma da primeira placa apical na epiteca. A espécie O. ovata possui uma forma de lágrima, ovoide e com um diâmetro dorso-ventral entre 47 a 55 µm e uma largura entre 27 e 35 µm. As células são fotossintéticas, com muitos cloroplastos dourados e com núcleo grande, ovoide na parte posterior.


Células de Ostreopsis sp.; Madeira/Foto: Manfred Kaufmann

 No caso do género Gambierdiscus, a forma e o tamanho do complexo do poro apical é importante. As células de G. toxicus são grandes, redondas a elipsoide com placas relativamente grossas. As células têm um diâmetro dorso-ventral entre 45 e 150 µm e uma largura entre 42 e 140 µm. É uma espécie fotossintética com cloroplastos desde o amarelo ao dourado-acastanhado e com núcleo grande em forma de crescente.

 Gambierdiscus

À medida que se intensificou a investigação de blooms de microalgas nocivas (HAB = Harmful Algal Blooms), ficou claro que revisões taxonómicas são necessárias, uma vez que se verificaram variações na morfologia, biogeografia, respostas ecológicas e toxicidade. Em conjunto com estudos genéticos, as descrições morfológicas de muitas espécies foram/serão revistas e novas espécies descritas (p.ex. Gambierdiscus excentricus das Ilhas Canárias). Assim, uma das espécies consideradas responsáveis pela intoxicação ciguatérica, a Gambierdiscus toxicus, foi recentemente revista e a estirpe que serviu para a descrição da espécie nem produz toxinas.

 

Biologia e distribuição

As espécies de ambos os géneros são geralmente encontradas em ambientes rochosos ou substratos duros, como, por exemplo, em recifes de corais ou como epífitas (sob plantas marinhas como angiospérmicas ou macroalgas). Também podem ser observadas na água por cima dos substratos, sobretudo quando ocorrem blooms. Reproduzem-se por fissão binária de forma vegetativa. Fixam-se por fios mucosos e/ou com ajuda do flagelo longitudinal, dando em caso de bloom o aspecto mucoso à superfície coberta (foto principal).

São conhecidas tipicamente das regiões tropicais a subtropicais, nos últimos anos foram registados também em zonas temperadas quentes.

Os dois géneros são habitualmente encontrados em conjunto com outras espécies dos seguintes géneros: Coolia, Prorocentrum, Amphidinium. Espécies destes géneros também são conhecidas por produzirem toxinas.

Nos arquipélagos da Madeira e das Selvagens são registadas até a data os seguintes taxa: Ostreopsis cf. ovata; Gambierdiscus cf. excentricus, Gambierdiscus sp., Coolia cf. monotis, Prorocentrum cf. lima, Amphidinium sp.

    

Curiosidades

Talvez um dos primeiros registos escritos relacionados com marés vermelhas esteja descrito na Bíblia (Êxodo 7: 20-21): “(...) e todas as águas do rio se tornaram em sangue. E os peixes que estavam no rio morreram, e o rio fedeu, e os egípcios não podiam beber a água do rio.” Neste caso, uma proliferação de microalgas não tóxicas podia ter consumido o oxigénio da água, levando à morte dos peixes.

O género Gambierdiscus é conhecido há mais tempo, do lado este do Atlântico. Em 1948, Estela de Sousa e Silva observou células da Boavista, Cabo Verde, que identificou, na altura, como Goniodoma sp. No entanto, pelo esboço e pela descrição, não há muita dúvida de que se tratou de Gambierdiscus sp.

Espécies dos dois géneros são conhecidas por fabricarem toxinas importantes e muito potentes. Muitas espécies de Gambierdiscus produzem ciguatoxinas (ou precursores), que podem ser acumuladas ao longo da cadeia alimentar. Ciguatoxinas são moléculas muito complexas que atuam nos canais de sódio das células de mamíferos. Nas regiões de maior incidência, são registados 25.000 a 500.000 casos de intoxicação humana por ano. Espécies do género Ostreopsis, por sua vez, produzem análogos de palitoxina, uma das mais complexas e potentes biotoxinas marinhas conhecidas. As toxinas são acumuladas ao longo da cadeia alimentar e acabam geralmente nos predadores/peixes maiores, como, por exemplo, meros, charuteiros (ou lírios), moreias e barracudas. A Ciguatoxina e a Palitoxina não são inativadas por temperaturas extremas, nem por outro tipo de tratamento; por isso, continuam ativas mesmo nos pratos devidamente preparados para consumo humano.

Provavelmente, o primeiro registo de intoxicação ciguatérica pode ser do Atlântico Este. Em 1525, uma frota de 7 navios espanhóis fundearam ao largo da ilha Annobón, no Golfo da Guiné. No relatório desta expedição pode ler-se: “(...) nesta ilha, um peixe muito bonito chamado barracuda foi capturado no navio almirante e o Capitão Geral convidou alguns dos capitães e oficiais do Rei para uma refeição. Todos os que comeram o barracuda adoeceram com diarreia e ficaram inconscientes, portanto pensámos que tinham morrido; no entanto, o nosso Criador quis que todos fossem salvos.” Todos os capitães intoxicados morreram mais tarde, durante a viagem, por causas desconhecidas. Por isso, a Ciguatera podia ser uma causa da morte, para além de que, recentemente, foram detetadas ciguatoxinas em peixes nos Camarões, não muito longe da ilha de Annobón.

Desde a década de 90, registaram-se problemas de saúde humana no Mediterrâneo relacionados com a existência e proliferação de Ostreopsis. Desde 2004, tem havido casos de Ciguatera, primeiro nas ilhas Canárias, e alguns anos mais tarde nas ilhas Selvagens.

Esqueleto de célula de Gambierdiscus sp.; Selvagens/Foto: José Tosta

 

 

Referências bibliográficas

Fraga, S., Rodríguez, F., Caillaud, A., Diogène, J., Raho, N. & Zapata, M. (2011) Gambierdiscus excentricus sp. nov. (Dinophyceae), a benthic toxic dinoflagellate from the Canary Islands (NE Atlantic Ocean). Harmful Algae, 11: 10-22.

Hallegraeff, G. M., Anderson, D. M. & Cembella, A. D. (2003) Manual on harmful marine microalgae. UNESCO Publishing.

Kaufmann, M. & Böhm-Beck, M. (2013) Gambierdiscus and related benthic dinoflagellates from Madeira archipelago (NE Atlantic). Harmful Algae News, 47: 18-19.

Parsons, M. L., Aligizaki, K., Bottein, M.-Y. D., Fraga, S., Morton, S. L., Penna, A. & Rhodes, L. (2012) Gambierdiscus and Ostreopsis: Reassessment of the state of knowledge of their taxonomy, geography, ecophysiology, and toxicology. Harmful Algae, 14: 107-129.

Vale, P. (2011) Biotoxinas emergentes em águas europeias e novos riscos para a saúde pública. Revista Portuguesa de Saúde Pública, 29: 77-87.

 

 
Taxonomia
Império: Eukariota
Reino: Chromista
Divisão: Dinophyta
Classe: Dinophyceae
Ordem: Gonyaulacales
Família: Goniodomataceae
Género: Ostreopsis & Gambierdiscus
Espécie: O. ovata Fukuyo e G. toxicus Adachi & Fukuyo
Autor desta ficha
Manfred Kaufmann Manfred Kaufmann
Professor Auxiliar na Universidade da Madeira e Investigador do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto
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