3 Agosto 2021
pt | en Contactos | Mapa do Site
Página Inicial » Espécie do Mês » Lobo marinho
Lobo marinho Versão para impressão Enviar por E-mail

Imagem rara de um lobo-marinho a apanhar sol em terra (14-05-2006). Fotografia retirada de: estacaochronographica.blogspot.pt

O lobo-marinho ou foca-monge do Mediterrâneo, Monachus monachus, é um dos mamíferos marinhos mais ameaçados de extinção do mundo, com uma população mundial inferior a 500 exemplares. Nas ilhas Desertas, arquipélago da Madeira, reside uma pequena colónia desta espécie, sendo a única foca existente em Portugal.

Outrora abundante em todo o arquipélago da Madeira, a população de lobo-marinho sofreu um forte declínio desde a sua descoberta em 1419, sobretudo devido a pressões antropogénicas, como a sua exploração comercial, morte deliberada pelos pescadores e morte acidental nas redes de emalhar, método de pesca que foi proibido mais recentemente. Em 1980, acreditava-se que a população encontrava-se à beira da extinção, com apenas 6 a 8 indivíduos estimados nas ilhas Desertas. Para prevenir o total desaparecimento desta espécie de foca no arquipélago da Madeira, o Serviço do Parque Natural da Madeira (SPNM) iniciou um Programa para a Conservação do Lobo-marinho em 1988, que levou à criação da Área de Proteção Especial das Ilhas Desertas em 1990, que posteriormente passaram a Reserva Natural em 1995.
Em consequência dos esforços de conservação, monitorização e educação ambiental desenvolvidos na região pelo SPNM, a população de lobo-marinho, atualmente estimada em cerca de 40 indivíduos, é a única em crescimento, comparativamente com o observado noutras áreas de distribuição da espécie, bacia do Mediterrâneo e Cabo Branco. Em simultâneo, observa-se um constante aumento de avistamentos em praias abertas nas ilhas Desertas e na ilha da Madeira, onde existem igualmente condições ideais para o seu repouso e reprodução, em praias abrigadas no interior de grutas. O lobo-marinho parece estar a recolonizar a ilha da Madeira.

 

Identificação


Fêmea imatura de lobo-marinho à procura de alimento. Fotografia: Nuno Sá (www.arkive.org)O lobo-marinho figura entre as maiores espécies de focídeos, depois dos elefantes-marinhos. Existe dimorfismo sexual tanto na cor como no tamanho dos animais adultos, sendo os machos maiores do que as fêmeas e de cor negra e as fêmeas de cor acinzentada. De uma forma geral, a parte dorsal é de cor escura e a ventral clara. A cabeça é arredondada com um focinho proeminente. As barbatanas posteriores estão direcionadas para trás e não podem girar para a frente. Os dedos estão conectados por uma membrana de pele. A cauda é curta e larga.

Nos avistamentos em alto mar, o que normalmente se observa é a cabeça do animal e um pouco do dorso. Nestas circunstâncias é importante ser capaz de distinguir um lobo-marinho de outros mamíferos marinhos com os quais pode apresentar certas semelhanças, como golfinhos ou outros cetáceos de pequeno porte. Neste sentido, o focinho e os bigodes são parecidos aos de um cão, e a ausência de orelhas e barbatana dorsal são características que nos podem ajudar a identificá-lo.

Também há que ter em conta que desde que nascem até à fase adulta mudam de aspeto e pelagem, passando pelas seguintes fases:
    - Cria: Ao nascerem medem aproximadamente 1 metro e pesam cerca de 20 quilos. Estão cobertas por um pelo fino e denso, de cor negra (pelagem lanuda) e têm uma característica mancha ventral branca ou amarela. A forma desta mancha permite identificar o sexo das crias. Nas fêmeas, a mancha é mais ou menos rectangular e nos machos tem forma de borboleta. Mantêm esta pelagem até à volta dos 2 meses de vida.
    - Jovem: No início têm um aspeto rechonchudo e uma pelagem cinzento prateada, mas com a idade vão perdendo peso e adquirem uma cor cinzenta ou castanha escura. Medem algo mais que metro e meio de comprimento e o corpo torna-se esguio, praticamente sem a presença de marcas ou cicatrizes.
    - Imaturo: Cor cinzenta ou castanha escura. À volta de 2 metros de comprimento. À medida que vão se aproximando da fase adulta, vão se tornando mais notórias umas cicatrizes que apresentam na pele, produzidas por golpes e fricções contra as rochas ou interação com outras focas.
    - Fêmea adulta: De cor acinzentada, podem atingir os 2,5 metros de comprimento. As fêmeas maiores podem apresentar uma zona mais clara no dorso, uma faixa formada pelas várias cicatrizes que lhes são produzidas pelos machos durante a cópula.
    - Macho adulto: Apresenta o mesmo padrão de coloração que as crias. É de cor negra com uma mancha ventral branca, com várias cicatrizes pelo corpo. Comprimento médio aproximado de 2 metros e quase 300 quilos de peso.

Biologia e distribuição

Fêmeas de lobo-marinho interagindo (2009). Fotografia: Ricardo Rocha (www.arkive.org)Originalmente, o lobo-marinho ocupava todo o Mar Mediterrâneo, Mar Negro e no Oceano Atlântico, a costa ocidental de África, de Marrocos ao Senegal, incluindo os arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde. Atualmente resta uma exígua população inferior a 500 exemplares, repartida em pequenos núcleos. Mais de metade desta população vive a Norte do Mediterrâneo oriental, nas costas da Grécia e Turquia. Poucas resistem ainda no Mediterrâneo ocidental, acantonadas nas costas marroquina e argelina. As restantes vivem em águas atlânticas, concretamente na Península norte africana do Cabo Branco e no arquipélago da Madeira (ilhas Desertas e da Madeira).
Dentro da área de distribuição mundial do lobo-marinho, só na península do Cabo Branco se registam agregações de indivíduos que podem considerar-se uma colónia. Neste local vivem cerca de 150 exemplares e nascem à volta de 30 crias por ano, por esta razão é conhecido como o último santuário da espécie.

As focas-monge são mamíferos marinhos pinípedes e os únicos membros da família Phocidae adaptados para viver em águas quentes. Existem três espécies diferentes: A foca-monge das Caraíbas, Monachus tropicalis (Gray, 1850) que se extinguiu recentemente, a foca-monge do Havai, Monachus schauinslandi (Matschie, 1905), que sobrevive com uma população atual de cerca de 2000 exemplares e a foca-monge do Mediterrâneo, Monachus monachus (Hermann, 1779), assim batizada porque grande parte da sua área de distribuição inicial englobava o Mar Mediterrâneo. É a foca mais rara do mundo.

Séculos atrás, a foca-monge do Mediterrâneo ou lobo-marinho vivia em grandes colónias que podiam atingir os milhares de exemplares e que habitavam praias de areia abertas e soalheiras, seu ambiente favorito. Com o passar do tempo, a ocupação e destruição deste tipo de habitat e outros impactos de origem humana, fizeram com que se refugiasse em locais mais recônditos e menos acessíveis, como grutas litorais.
Desconhecida até há bem pouco tempo, hoje em dia sabe-se um pouco mais sobre a biologia do lobo-marinho. De um modo geral, sabemos que são animais de hábitos solitários, vivendo isolados ou em pequenos grupos, mas em observações feitas em Cabo Branco a grupos grandes, comprovou-se que são também muito sociais, por exemplo, em terra gostam de descansar acompanhados, e na água gostam de brincar muito, brigar e perseguem-se uns aos outros. Podem afastar-se até longas distâncias da costa em busca das presas, as quais capturam em imersões de poucos minutos e a pouca profundidade, apesar de serem capazes de mergulhar a profundidades de mais de cem metros e durante quinze minutos. A sua dieta é variada e inclui peixes, crustáceos e cefalópodes.

Lobos-marinhos a acasalar. Fotografia: Nuno Sá (www.arkive.org)


As fêmeas alcançam a maturidade sexual aos três anos e meio e os machos entre os quatro e os cinco anos de vida. Os machos adultos defendem os seus territórios perto das grutas de repouso. As fêmeas têm uma única cria anualmente após um período de gestação de perto de 9 meses e, em princípio, os nascimentos podem ocorrer em qualquer época, algo que não é comum acontecer noutras espécies de focas. No entanto, nas ilhas Desertas, confirmou-se um aumento no número de nascimentos de setembro a novembro, podendo ocorrer até março. As crias permanecem em praias abrigadas no interior de grutas perto da mãe até aos primeiros dez dias de vida. Ao contrário de outras espécies de focas, as fêmeas não entram em jejum enquanto dão de mamar e assim deixam as crias sozinhas nas primeiras semanas enquanto enfrentam o mar à procura de alimento.
Aos dois meses as crias mudam para uma nova pelagem, já preparada para a vida aquática. A partir daí passam mais tempo na água, apesar de continuarem a depender da mãe e aos quatro meses ocorre o desmame, após uma das mais longas fases de lactação conhecidas entre os focídeos. Existem casos registados de mães que amamentam crias de outras fêmeas e de crias que mamam de várias fêmeas.
O lobo-marinho poderá atingir os 35 anos de idade.


Curiosidades

Fêmea e cria de lobo-marinho. Fotografia retirada de: zoo-centro-pedagogico.blogspot.ptA denominação de “lobo-marinho”, como é mais conhecida, foi o nome dado por João Gonçalves Zarco, aquando da descoberta da ilha da Madeira, em 1419, por emitir sons como urros e também por apresentar uns afiados dentes caninos, como os lobos. Um dos concelhos da ilha, designado por Câmara de Lobos, foi assim batizado porque quando os marinheiros aportaram na baía de Câmara de Lobos, encontraram uma grande colónia de lobos-marinhos.
Ao ser um animal de hábitos solitários e que em descanso forma umas pregas no pescoço que lembram a base de um capuz de monge, também é conhecido por “foca-monge”.

    Em Portugal, a foca-monge do Mediterrâneo sobrevive apenas no arquipélago da Madeira e está classificada como espécie Ameaçada em Perigo Crítico (União Internacional para a Conservação da Natureza [IUCN]). Está protegida na Madeira por legislação regional (Decreto Legislativo Regional n.º 6/86/M de 30 de Maio, que regulamenta a Proteção dos Mamíferos Marinhos no Arquipélago da Madeira), europeia (Diretiva Habitats 92/43/CEE) e internacional (Convenção de Washington [CITES], Convenção de Barcelona, Convenção de Berna, Convenção de Bona, Convenção do Rio).

Uma das medidas adotadas pelo Serviço do Parque Natural da Madeira para a proteção e monitorização da população de lobos-marinhos foi a criação de uma unidade de reabilitação para lobos-marinhos nas Ilhas Desertas em 1997, onde só foram tratadas 2 focas. Uma em 1997, uma cria, a “Autonomia”, encontrada desnutrida com apenas 2 ou 3 semanas de vida nas Ilhas Desertas, a qual foi tratada e devolvida à Mãe com sucesso, e outra em 2008, uma fêmea adulta, a emblemática "Desertinha", encontrada debilitada num varadouro do Funchal, a qual acabou por morrer em resultado de uma paragem cardíaca durante o processo de recuperação. A “Desertinha”, que ao longo de mais de 20 anos foi uma das principais reprodutoras da colónia (teve 9 crias), foi o primeiro animal a ser observado e identificado pelo SPNM e era também o mais velho do grupo. Em sinal de reconhecimento pela importância que teve, encontra-se hoje exposta no Museu da Baleia da Madeira.
Para uma monitorização mais eficiente, foi instalado um sistema simples com câmaras automáticas em praias e grutas, e em outubro de 2012 foi observada na Praia do Tabaqueiro (ilhas Desertas) pela primeira vez uma cria com apenas 1 dia de vida acompanhada por 2 fêmeas, que pareciam estar a partilhar a função de mãe. É possível que uma delas tenha perdido a própria cria. Este sistema poderá ser de grande valor, principalmente na altura das tempestades marinhas, época dos nascimentos, que muitas vezes impedem a observação direta.

 

Cria com 1 dia de vida com fêmeas na Praia do Tabaqueiro (26-10-2012). Fotografia: Rosa Pires, SPNM (www.monachus-guardian.org/wordpress/)

 

Bibliografia

Karamanlidis, A. A., Pires, R., Neves, H. C. & Santos, C. 2003. Habitat of the endangered Mediterranean monk seal (Monachus monachus) at São Lourenço - Madeira. Aquatic Mammals 29 (3): 400-403.

Karamanlidis, A. A., Pires, R., Silva, N. & Neves, H. C. 2004. The availability of resting and pupping habitat for the Critically Endangered Mediterranean monk seal Monachus monachus in the archipelago of Madeira. Oryx 38 (2): 180–185.

Neves, H. C. 1998. Preliminary findings on the feeding behaviour and general ecology strategy of the mediterranean monk seal Monachus monachus - (Pinnipedia: Monachinae) on the Desertas Islands. Boletim do Museu Municipal do Funchal 5: 263-271.

Neves, H. C. & Pires, R. 2001. Recuperation of a Mediterranean monk seal pup, Monachus monachus, in Desertas Islands, Madeira archipelago: conditions for its success. Arquipélago. Life and Marine Sciences Supplement 2 (Part B): 111-116.

Pires, R. 2011. Lobos-Marinhos do Arquipélago da Madeira. Monk Seals of the Archipelago of Madeira. Serviço do Parque Natural da Madeira, Funchal. 60 pp. (http://www.monachus-guardian.org/library/pires11a.pdf).

 
 
Taxonomia
Império: Eukariota
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Pinnipedia
Família: Phocidae
Género: Monachus
Espécie: M. Monachus (Hermann, 1779)
Autor desta ficha
Saiba mais em:
Mapa do Site | Sugestões | Condições de utilização | Privacidade | © 2021, Municipio do Funchal Facebook | RSS