3 Agosto 2021
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Alma Negra. Foto H. Shirihai – Tubenoses Project

A Alma Negra (em inglês Bulwer’s Petrel) é uma ave marinha de pequeno porte que se encontra com regularidade nos mares em volta das ilhas que compõem o arquipélago da Madeira. O seu nome advém do facto de ser uma ave pequena e ágil e toda negra.

 A Alma Negra ou Anjinho (Bulweria bulwerii) foi descoberta pelo Reverendo James Bulwer (1794-1879), naturalista Escocês que visitou a Madeira, na Primavera de 1825. O exemplar colhido foi enviado ao conceituado ornitólogo Sir William Jardine, o qual, em parceria com P. J. Selby, descreveu a espécie como nova para a ciência em 1828 e dedicou-a ao seu coletor.
De acordo com  Brooke (2004) a população mundial desta espécie está estimada entre 500.000 a 1.000.000 de indivíduos distribuídos pelos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico.
Nas águas Europeias esta espécie é considerada pouco comum, sendo que a maioria da sua população se concentra no Arquipélago da Madeira e Selvagens e, em menor número, nos Açores e nas Canárias.

Alma Negra. Foto M. Biscoito, Museu de História Natural do Funchal

 

Identificação


Ave típica da família Procellariidae, de tamanho pequeno (comprimento total 25-29 cm) e asas longas (envergadura 78-90 cm), possui um bico curto e fino, recurvado na ponta, de cor negra. A plumagem dos adultos é completamente negra. As patas e a membrana interdigital são negras. No mar parecem por vezes flutuar às voltas sobre a água à medida que apanham alimento na superfície. Esta espécie é inconfundível e a sua identificação no mar é relativamente fácil.

Alma Negra. Foto M. Biscoito, Museu de História Natural do Funchal

 

Biologia e distribuição

Como todos os outros membros desta família, a Alma Negra é uma ave marinha pelágica, isto é, vive em permanência no mar, necessitando apenas de terra firme para efetuar a sua reprodução. Os casais procuram pequenas cavidades naturais nos alcantilados sobre o mar ou em muros de pedra aparelhada como os que existem na Selvagem Grande, para fazerem os seus ninhos, ficando assim ao abrigo dos predadores, em particular as gaivotas. Nas Selvagens as aves regressam da sua migração anual durante a segunda metade de abril. A postura decorre entre o final de maio e o início de Junho e a fêmea põe apenas um ovo, que é incubado por ambos os membros do casal, alternadamente, durante cerca de 42 dias. Em meados de setembro os juvenis começam a abandonar os ninhos e esta saída completa-se até ao final de setembro, altura a partir da qual se deixam de ver estas aves nas ilhas (Zino & Biscoito, 1994).
Na Ilha da Madeira a sua nidificação está apenas confirmada na Ponta de S. Lourenço, embora seja de esperar que ocorra também noutros locais ao longo da costa ou mesmo no interior da ilha, como acontece nas Canárias. As principais áreas de nidificação desta espécie no arquipélago são os ilhéus do Porto Santo, as Desertas e as Selvagens. Nestas últimas ilhas estima-se que possam existir até 5.000 pares (Zino & Biscoito, 1994).

“Data-logger” utilizado para determinar os movimentos das almas negras no mar. © Zino et al. (2011)

Com o avanço da tecnologia, Francis Zino e colaboradores recorreram à utilização de “data-loggers” com apenas 1,2 g, colocados na pata das aves para determinar os seus movimentos, a partir das Selvagens. Assim, durante o período de incubação as aves adultas vão em regra para as águas do afloramento Saariano para se alimentarem. Quando termina a postura todas as aves parecem dirigir-se para sudoeste, permanecendo no alto mar entre África e a América do Sul, por vezes aproximando-se da costa nordeste do Brasil (Zino et al., 2013). Este padrão de distribuição é comparável ao obtido com a Freira da Madeira (Pterodroma madeira) (Zino et al., 2011).

Distribuição das Almas Negras das Selvagens durante a época de reprodução (Maio a Setembro). © Zino et al. (2013)          Distribuição das Almas Negras das Selvagens durante a migração anual (Outubro a Abril). © Zino et al. (2013)

    

Curiosidades


Os estudos que têm sido levados a cabo nas Ilhas Selvagens parecem indicar que os casais que se formam mantêm-se estáveis pela vida fora, havendo também um elevado grau de fidelidade ao ninho.

Alma Negra. Foto H. Shirihai – Tubenoses Project

 

A idade adulta só é atingida 4 a 5 anos após o nascimento e a sua longevidade pode ultrapassar os 20 anos.
A Alma Negra alimenta-se de pequenos peixes e invertebrados planctónicos que captura à superfície, efetuando mergulhos a pouca profundidade, ao contrário de outras aves da mesma família, como sejam as cagarras ou os pintainhos, cujos mergulhos podem atingir mais de 10 m de profundidade.

Alma Negra alimentando-se. Foto H. Shirihai – Tubenoses Project



 

 

Referências bibliográficas

Brooke, M. de L. 2004.  Albatrosses and petrels across the world. Oxford University Press, Oxford, UK.

Zino, F. & M. Biscoito. 1994. Breeding seabirds in the Madeira Archipelago.  Pp.172-185 in D. N. Nettleship, J.Burger and M. Gochfield, eds. Seabirds on Islands: threats, case studies and action plans. Cambridge,U.K. BirdLife International (BirdLife Conservation Series nº1).

Zino, F., R. Phillips & M. Biscoito, 2011. Zino’s Petrel movements at sea – a preliminary analysis of datalogger results. Birding World, 24(5): 216-219.

Zino, F., R. Phillips & M. Biscoito, 2013. Bulwer’s Petrel movements at sea - a preliminary analysis of datalogger results from Selvagem Grande (30º 09'N, 15º 52'W). Birding World (in press).

A Alma Negra (em inglês Bulwer’s Petrel) é uma ave marinha de pequeno porte que se encontra com regularidade nos mares em volta das ilhas que compõem o arquipélago da Madeira. O seu nome advém do facto de ser uma ave pequena e ágil e toda negra
 
Taxonomia
Império: Eukariota
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Aves
Ordem: Procellariiformes
Família: Procellariidae
Género: Bulweria
Espécie: B. bulwerii Jardine & Selby, 1828
Autor desta ficha
Manuel José da Conceição Biscoito Manuel José da Conceição Biscoito
Director do Departamento de Ciência e Conservador de Vertebrados do Museu de História Natural do Funchal
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