3 Agosto 2021
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Cachalote, Physeter macrocephalus. © Museu da Baleia da Madeira.

O cachalote, Physeter macrocephalus, é o maior exemplar da sub–ordem Odontoceti, que engloba todos os cetáceos com dentes, podendo um macho adulto atingir 18 metros de comprimento e exceder as 45 toneladas de peso. É uma espécie com características muito distintas, sendo das mais facilmente identificáveis.

Espécie com estatuto de conservação de Vulnerável, o cachalote foi caçado na Madeira e nos Açores, até à década de 1980 e o que parece inacreditável é que continua a ser perseguido nos dias de hoje, em países como o Japão, para “fins científicos”, e na Indonésia, como sustento de uma pequena comunidade de pescadores.

 

Identificação


Physeter macrocephalus. Desenho de Helena Encarnação. Museu da Baleia da Madeira

Os cachalotes são inconfundíveis. O facto de possuírem uma cabeça quadrangular e de algum modo desproporcionada em relação ao resto do corpo, especialmente nos machos, correspondendo a 25-33 % do comprimento total, distingue-os imediatamente. A cabeça aloja no seu interior o órgão do espermacete (substância cerosa) e um cérebro que pesa aproximadamente 7 kg num macho adulto, considerado o maior cérebro de todos os animais vivos ou extintos. Respiram através de um único espiráculo em forma de “S”, que está situado no lado esquerdo da parte frontal da cabeça, originando um sopro oblíquo, inclinado 45º para a frente e ligeiramente para a esquerda, que pode atingir 5 m. Esta é uma das características que permitem a sua rápida identificação quando se encontram à superfície. Apenas dispõem de dentes na maxila inferior, entre 18 e 28 pares de dentes enormes com forma cónica. A barbatana dorsal é pouco desenvolvida, sob a forma de uma pequena protuberância seguida de uma série de cristas. As barbatanas peitorais são muito reduzidas, em forma de remo e a barbatana caudal é larga e triangular. Quando o cachalote mergulha eleva-a completamente fora de água (fundamental em foto-identificação). Apesar da sua cor ser predominantemente cinzenta-escura, podem parecer acastanhados e existem registos de cachalotes albinos, mas muito raros. A pele tem um aspeto enrugado, com exceção da cabeça que é lisa, podendo apresentar diversas cicatrizes, especialmente os machos. Os cachalotes machos podem exceder os 18 metros de comprimento e as fêmeas raramente ultrapassam os 12 metros. O peso médio do macho é de 45 toneladas e o peso da fêmea pode chegar às 20 toneladas.

Nomes comuns:
Cachalote ou baleia (PT), cachalote ou ballena de esperma (ES), sperm whale (UK), cachalot (FR), pottwall (DE).

 

Biologia e distribuição

Cachalote nos mares da Madeira (02-11-2005). Fotografia: Filipe Alves. © Museu da Baleia da Madeira.O cachalote, Physeter macrocephalus, é uma espécie cosmopolita, que ocorre em todos os oceanos, desde o equador até latitudes mais elevadas. A sua distribuição estende-se até mares fechados ou semi-fechados, nomeadamente o Mar Mediterrâneo, Mar de Okhotsk, Golfo da Califórnia e Golfo do México. Não se encontra no Mar Negro e no Mar Vermelho. Nos arquipélagos da Madeira e dos Açores é observado com regularidade durante todo o ano. A Madeira é um local de passagem ou permanência temporária.
Apesar de estar amplamente distribuída, essa distribuição é desigual, pois os grupos de fêmeas e juvenis imaturos são geralmente encontrados a latitudes entre 40ºS e 42ºN, águas profundas tropicais e temperadas, com temperatura superficial igual ou superior a 15°C. Os machos adultos deslocam-se até latitudes entre 60ºN e 70ºS, zonas subpolares, suportando temperaturas até 0º C e também são encontrados perto da costa, em águas pouco profundas.

De todos os cetáceos, os cachalotes são os que apresentam um dimorfismo sexual mais evidente. A taxa de crescimento dos machos aumenta a partir dos 2-3 anos de idade, podendo os machos adultos atingir dimensões muito maiores (18 metros de comprimento e mais de 45 toneladas de peso) do que as fêmeas adultas, que raramente ultrapassam os 12 metros de comprimento total e as 20 toneladas de peso.
As fêmeas atingem a maturidade sexual próximo dos 9 anos de idade quando medem cerca de 9 metros, enquanto que nos machos a puberdade pode ser prolongada e ir desde os 10 até aos 20 anos de idade, participando activamente na reprodução apenas alguns anos mais tarde e continuando a crescer até aos 40 anos. A gestação é de 14-16 meses, nascendo 1 cria (raramente 2) com cerca de 1 tonelada e 4 m de comprimento, a cada 4-6 anos. O período de amamentação é por 1-2 anos, podendo no entanto, as crias começarem a ingerir alimentos sólidos antes de 1 ano de idade, mas continuando a mamar até anos mais tarde. Os cachalotes podem viver até à idade de 60-80 anos.

Espécie oceânica, pelágica e migratória, o cachalote apresenta uma estrutura social muito complexa, aliás como todos os exemplares da ordem Cetacea. São animais gregários, que convivem em grupos de 10 a 20 indivíduos, formados por fêmeas e juvenis imaturos. As fêmeas permanecem juntas durante longos anos (geralmente a vida inteira) e ao seu grupo vão se juntando os novos recém-nascidos, juvenis imaturos e machos sexualmente maduros, na época de reprodução. Os machos abandonam o grupo familiar entre os 4 e os 21 anos de idade, à procura de áreas de alimentação mais ricas e para evitar confrontos com machos reprodutores, formando grupos de menores dimensões com outros machos sexualmente inactivos. Os machos socialmente maduros começam a afastar-se para latitudes mais elevadas (em direção aos pólos), até que os mais velhos ficam sozinhos. Os machos de maiores dimensões, com mais de 20 anos de idade, sexualmente maduros, voltam ocasionalmente às áreas reprodutoras para acasalar.

As presas preferenciais do cachalote são as lulas gigantes e outros cefalópodes, podendo ocasionalmente alimentar-se de grandes peixes demersais e mesopelágicos, crustáceos, alforrecas e focas. Diversas hipóteses têm sido propostas para o processo de captura das suas presas, já que ocorre a grandes profundidades e tendo em atenção que o cachalote é um animal de movimentos lentos, referem-se aqui apenas algumas: o uso da ecolocalização na localização da presa; o interior branco e brilhante do palato (céu da boca), língua e dentes são excelentes para atrair as presas, incitando-as a entrar na boca mais facilmente; nadar de boca aberta durante um certo tempo, capturando presas aleatoriamente. Os sons que emitem provocam atordoamento das presas.

Em termos de estatuto de conservação da IUCN, a espécie está classificada como Vulnerável.  Na Madeira, para além da legislação internacional em vigor, existe uma legislação regional de protecção. O Museu da Baleia da Madeira dinamiza a investigação, a divulgação e sensibilização para a conservação dos cetáceos no arquipélago.


Curiosidades

Cachalotes. Fotografia: J. Gordon, Song of the whale Os cachalotes são mergulhadores prodigiosos, podendo atingir profundidades extremas de 3000 metros, com um tempo máximo de mergulho de 1 hora 30 minutos (as fêmeas aguentam cerca de 45 minutos). Quando surgem à superfície, logo após um mergulho de longa duração, é de uma forma inesperada, emitindo um sopro (jato fino de vapor de água) bem visível e sibilante. À superfície, mantêm-se imóveis ou movem-se lentamente na horizontal, emitindo sopros regulares. Um estudo realizado no arquipélago dos Açores revelou que os cachalotes passam, regra geral, entre 5 a 10 minutos à superfície. Os seus mergulhos superficiais geralmente não ultrapassam os 300 m e duram em média 15 minutos, quando estão em socialização ou sentem-se perturbados. A sua velocidade de deslocação normal é lenta (3 a 5 nós), mas quando se sentem ameaçados pode chegar aos 20 nós e em mergulho descem a cerca de 80 metros por minuto.

Uma das capacidades mais aperfeiçoadas destas baleias e dos golfinhos, que pertencem ao mesmo grupo, dos cetáceos com dentes, é a de utilizarem os sons como forma de se orientarem a distâncias consideráveis, em condições de fraca visibilidade (grandes profundidades) ou localizarem presas ou potenciais predadores, por um sistema de comunicação denominado ecolocalização. Este processo consiste na emissão de um feixe de sons agudos, geralmente não audíveis pelo ouvido humano e na receção do eco produzido ao atingir um objecto. Esta forma de comunicação é essencial na sua vida e permite que consigam distinguir a distância, direcção, tamanho, forma, movimento e alguma da estrutura interna dum objecto. Um dos órgãos aparentemente envolvido na ecolocalização é o espermacete, assim designado por julgar-se erradamente que era o esperma do cachalote (originou a designação “sperm whale” em inglês). Alguns especialistas dizem que este órgão também regula a flutuabilidade dos indivíduos desta espécie.
Os cachalotes utilizam diferentes sons para comunicarem. Além de um som idêntico ao de uma trombeta, o resto das vocalizações consiste numa repetição de simples estalidos ou cliques. Estalidos regulares são emitidos a frequências que variam entre 0.1 e 30 KHz. Os sons podem percorrer uma distância de 10 km através da água. Os saltos fora de água e o bater na superfície com as barbatanas poderão também ser uma forma de comunicação.

Desde o início do séc. XVIII que o cachalote é perseguido pelo homem, procurado pelo seu óleo, pelo espermacete, “âmbar cinzento” (valioso e raro excremento destas baleias, muito usado na indústria dos perfumes), carne (muito apreciada no Japão), os ossos e os dentes pelo marfim, utilizados na produção de delicadas peças de artesanato e de “scrimshaw” (arte de esculpir, gravar ou pintar em marfim ou osso).
Na Madeira, a caça ao cachalote começou em 1940, com a chegada dos primeiros baleeiros (os caçadores) e baleeiras (as embarcações), provenientes dos Açores. Terminou em 1981, sendo o último cachalote capturado com lança e arpão em Portugal em 1987, nos Açores.

Caça ao cachalote nos anos 1940-1950. Fotografia: www.geocaching.com. 

Relato de um antigo baleeiro madeirense:
http://www.dnoticias.pt/actualidade/madeira/280896-antigo-baleeiro-do-canical-recorda-caca

A partir de 1986, o Decreto Legislativo Regional Nº 6/86/M proibiu a prática desta atividade na Madeira até às 200 milhas, transformando-a num santuário para baleias, golfinhos e outros mamíferos marinhos, nomeadamente o lobo-marinho (Monachus monachus). Hoje em dia podemos observá-los no seu habitat natural a partir de embarcações pertencentes a empresas de “Whale Watching” (observação de cetáceos). O Museu da Baleia da Madeira, no sentido de minimizar o impacto desta atividade nos cetáceos, está a implementar o regulamento de adesão voluntária para as embarcações comerciais de observação de cetáceos.

Representação à escala de um cachalote (Museu da Baleia da Madeira)

 

Bibliografia

Bonner, N. 1989. Whales of the World. Facts on File, NY. 191 pp.

Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida, P.R., Dellinger, T., Ferrand de Almeida, N., Oliveira, M.E., Palmeirim, J.M., Queiroz, A.I., Rogado L. & Santos-Reis, M. 2005. Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa.

Freitas, L., Antunes, R., Freitas, C. & Pires, R. 2002. Mamíferos Marinhos do Mar do Arquipélago da Madeira. Biodiversidade Madeirense: Avaliação e Conservação II. Secretaria Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais. Funchal. 71 pp.

Freitas, L., Dinis, A., Alves, F. & Nóbrega, F. 2004. Cetáceos no Arquipélago da Madeira. Projecto para a Conservação dos Cetáceos no Arquipélago da Madeira. Ed. Museu da Baleia da Madeira, Machico. 62pp.

Nicolau, C., Ferreira, R., Dinis, A., Assis, C. & Freitas, L. 2007. Characterization of Whale-watching Activity in Madeira Archipelago (Se North Atlantic), Portugal. Scientific Poster. Madeira Whale Museum, Machico, Madeira. Faculty of Sciences, University of Lisbon.

 
Taxonomia
Império: Eukariota
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Mammalia
Ordem: Cetacea
Família: Physeteridae
Género: Physeter
Espécie: P. macrocephalus (Linnaeus, 1758)
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