3 Agosto 2021
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Enguia de Jardim Versão para impressão Enviar por E-mail

Enguia de Jardim. Fotografia © Peter Wirtz

As enguias de jardim são pequenos congros que vivem em colónias na areia, a pouco profundidade e que têm a particularidade de, durante o dia, ficarem parcialmente enterrados, dando a impressão de serem plantas plantadas num jardim. São elementos característicos da fauna marinha litoral dos fundos de areia da Madeira e muito apreciados pelos mergulhadores amadores.

 As enguias de jardim do género Heteroconger são pequenos congros que têm a particularidade de viver enterrados na areia fina, formando colónias por vezes densas. Durante o dia saem parcialmente dos tubos e causam, nos mergulhadores, a impressão de uma pradaria ou jardim, com plantas eretas e ondulantes.

São conhecidas 21 espécies deste género, distribuídas pelas regiões tropicais e subtropicais dos oceanos. A espécie H. longissimus foi descrita para a ciência por Albert Günther em 1870, com base num exemplar proveniente de Lanzarote, nas Ilhas Canárias e enviado para o Museu de História Natural de Londres pelo conhecido naturalista Inglês Richard Thomas Lowe, que viveu muitos anos na Madeira e é responsável pela elaboração, entre outros, do primeiro catálogo ilustrado de peixes desta ilha.

 

Identificação


Congro de pequenas dimensões, possui o corpo muito alongado e cilíndrico, tornando-se mais comprimido na parte caudal. Possui um focinho muito curto e a boca sub-terminal, com lábios grossos. A barbatana dorsal inicia-se logo após as aberturas branquiais e é confluente com as barbatanas caudal e a anal. A coloração é castanha, com pequenas pontuações amarelas espalhadas pelo corpo. A parte ventral e a região caudal são mais claras. Têm 158 a 168 vértebras.

Enguia de Jardim. Desenho © Helena Encarnação/DCI-MMF

 

Biologia e distribuição

Espécie bentónica costeira, forma colónias densas (1-20 ind./m2) em fundos de areia fina, entre os 11 e os 40 m de profundidade. Cada indivíduo ocupa uma galeria vertical e ondulada, feita com muco segregado pela pele, onde permanece, durante o dia, com quase metade do seu corpo de fora, com a cabeça virada contra a corrente a fim de apanhar os pequenos organismos planctónicos de que se alimenta. À noite todos os indivíduos estão recolhidos nas suas galerias. Com a aproximação dos mergulhadores ou a presença de predadores, recolhe-se nas suas tocas. Em caso de extrema necessidade é capaz de se deslocar horizontalmente dentro da areia, tornando assim a sua captura muito difícil.

Colónia de Enguias de Jardim no Funchal. Fotografia © Ricardo Araújo/DCI-MMF          Pormenor da cabeça de Enguia de Jardim. Fotografia © Pedro Gomes – Fotografia Subaquática

Espécie dióica (indivíduos masculinos e femininos), pode atingir os 60 cm de comprimento total. A reprodução é ovípara, ocorrendo nos meses de Verão. As larvas leptocéfalas possuem um crescimento rápido. No Oceano Atlântico oriental a espécie é apenas conhecida nos arquipélagos da Madeira, Canárias e Cabo Verde e nas costas do Senegal e São Tomé. Tem uma distribuição mais ampla no Oceano Atlântico ocidental, desde a Florida até ao Brasil, incluindo Bahamas, Caraíbas e Antilhas. É uma espécie vulgar.

    

Curiosidades


As enguias de jardim não são alvo de pesca e não possuem valor comercial.

Como se recolhem nas suas galerias com a aproximação dos mergulhadores, tornam-se bastante difíceis de fotografar e de capturar. Este aspeto provocou um grande interesse no famoso explorador do mar Jacques-Yves Costeau durante a sua visita à Madeira em 1956, com o seu navio “Calypso”. Na altura a única forma encontrada para capturar um exemplar, foi o recurso a uma pequena carga explosiva.

Enguia de Jardim na galeria. Fotografia © Pedro Gomes – Fotografia Subaquática


Trinta anos mais tarde, o oceanógrafo Português Luiz Saldanha e ao autor interessaram-se novamente por esta espécie e pela sua correta identificação. Após várias tentativas de captura mais ou menos mal sucedidas, com recurso a aspiradores, injeção de produtos irritantes nas galerias e escavação manual, o Dr. Francis Zino, conhecido ornitologista e investigador associado do Museu de História Natural do Funchal, teve a brilhante ideia de sugerir o recurso ao sal como forma de fazer as enguias saírem das suas galerias. O sal, mais denso do que a água do mar, pode ser deitado dentro dos orifícios e ao provocar um aumento localizado da salinidade da água faz com que as enguias aflorem à superfície para respirar e desta forma se deixem apanhar à mão. Estava resolvido um problema que subsistia há décadas.

Molde de uma galeria de Enguia de Jardim. © Manuel Biscoito/DCI


Foi assim possível, com recurso a uma resina de poliéster, efetuar moldes das galerias e perceber que as mesmas têm uma forma ondulada e penetram verticalmente no solo arenoso, tendo uma dimensão adequada ao tamanho da enguia.

Video

 

Referências bibliográficas

Saldanha, L., G.E. Maul, M. Biscoito & F. Andrade: 1986. On the identity of Heteroconger longissimus Günther, 1870 and Heteroconger halis (Böhlke, 1957)(Pisces, Congridae). Bocagiana, 104:1-17

Smith, D. G.:1989. Family Congridae, pp. 460-567. In: Böhlke, E. B., (Ed.) – Fishes of the Western North Atlantic. Part 9, vol 1: Orders Angulliformes and Saccopharyngiformes. Sears Foundation for Marine Research, Yale University, New Haven, CT, USA.

 
Taxonomia
Império: Eukariota
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Actynopterygii
Ordem: Anguilliformes
Família: Congridae
Género: Heteroconger
Espécie: H. longissimus Günther, 1870
Autor desta ficha
Manuel José da Conceição Biscoito Manuel José da Conceição Biscoito
Director do Departamento de Ciência e Conservador de Vertebrados do Museu de História Natural do Funchal
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