3 Agosto 2021
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Verme-de-fogo, Hermodice carunculata. Madeira. Fotografia de Pedro Vasconcelos

O atractivo verme-de-fogo, Hermodice carunculata é um poliqueta activo e predador conspícuo da Família Amphinomidae.
Esta Família, com cerca de 180 espécies descritas, tem uma distribuição mundial, ocorrendo desde a zona intertidal até profundidades abissais..

Hermodice carunculata. Madeira. Fotografia de Pedro Vasconcelos

Quando perturbados, a maioria dos Amphinomidae assume uma postura defensiva, arqueando o corpo dorsalmente e dispondo extensos fascículos de sedas (género de espinhos). Algumas espécies como a Hermodice carunculata e a Eurythoe complanata (verme-de-fogo também presente nos mares da Madeira) podem provocar reações desagradáveis em humanos, como inflamações.

A Classe Polychaeta, à qual pertence a espécie referida, Hermodice carunculata, forma o maior e mais primitivo grupo de anelídeos. Sendo constituída maioritariamente por organismos marinhos, tem mais de 14000 espécies descritas, formando um dos grupos marinhos mais abundantes. Os poliquetas apresentam uma coloração muito variável e intensa e uma beleza excepcional, salvo raras excepções, o que não se verifica nos outros grupos de anelídeos. Mostram uma enorme diversidade em formas, estilos de vida e de estratégias alimentares, o que permitiu a sua adaptação a uma grande variedade de habitats. Podemos encontrar espécies predadoras, herbívoras e filtradoras com tamanhos que variam entre muito menos de um milímetro e três metros de comprimento.

 

Identificação


Hermodice carunculata. Desenho de Helena Encarnação (Museu de História Natural do Funchal)

O corpo é multi-segmentado externa e internamente, com músculos longitudinais mais desenvolvidos do que os circulares, é alongado e achatado dorsoventralmente; o lóbulo prostomial (parte anterior do prostómio – região pré-segmental) tem um par de palpos ventro-laterais (função sensorial ou utilizados para procurar alimento); a parte posterior do prostómio (lóbulo posterior) rectangular tem uma antena mediana (função sensorial) e 4 olhos dispostos num rectângulo; Antena mediana 2 vezes mais comprida que as laterais; Carúncula (nucal), muito evidente, tão larga como comprida, sem sulco mediano, cobre os 4 setígeros (segmentos com sedas) anteriores, com 6-8 folhetos laterais, com ou sem folhetos secundários; parápodes (projeções laterais com função natatória, para escavar ou para criar uma corrente de alimentos) muito elaborados, formam grandes lóbulos carnudos que actuam como remos; Aparelho digestivo completo, estendendo-se por todo o corpo, é composto por cinco regiões principais: o órgão bucal (boca ventral, envolta pela parte anterior do prostómio e os primeiros 3-5 setígeros; Faringe musculada, projetando-se para fora, sem maxilas nem papilas – função raspadora), o esófago curto, o intestino longo (começa entre o 8º e 10º segmentos, estendendo-se até à zona posterior) e o recto curto que abre posteriormente no ânus; ânus dorsal e sem papilas; mixonephridia (sistema excretor) presentes, um par em cada segmento; respiração por brânquias, presentes em todos os setígeros, ramificadas, dendríticas, cada uma com 2 pedúnculos; cirros dorsais e ventrais com ligação basal; sedas (chaetae) notopodiais capilares em forma de arpão (estruturas ocas, possuem veneno no seu interior e que servem para defesa ou ataque); Acículas e outras sedas denticuladas e calcificadas; Sistema nervoso com um par de gânglios cerebrais, ligados a um cordão nervoso ventral, que percorre todo o corpo; Sexos separados, fecundação externa, desenvolvimento com estado larvar; Sistema circulatório fechado.

H. carunculata. Madeira. Fotografia de Helena Encarnação

A coloração é variável, face dorsal acastanhada, preta e por vezes esverdeada, com bandas brancas inter-segmentais, face ventral amarelada, alaranjada ou avermelhada, duas bandas laterais esbranquiçadas, amareladas ou pretas. Brânquias avermelhadas com pontos brancos, franjas laterais com sedas brancas.
Espécie com tamanhos que variam entre 60 e 400 mm de comprimento e 20 mm de largura, em cativeiro podem atingir dimensões maiores. O corpo pode ser constituído por 60 a 150 segmentos.

Hermodice carunculata pode ser muitas vezes confundido com Eurythoe complanata, à vista desarmada. As duas espécies são vermes-de-fogo (Amphinomidae), de corpo alongado, mas variam notavelmente no desenvolvimento da carúncula. Em E. complanata a estrutura é longa, sinuosa, com folhetos laterais pouco desenvolvidos e escondidos. Em H. carunculata é larga e com forma oval, com folhetos laterais evidentes.

Eurythoe complanata (Encyclopedia of Life – www.eol.org)

As características utilizadas na taxonomia, identificação de espécies pertencentes à Família Amphinomidae incluem morfologia dos prostómios e desenvolvimento de apêndices prostomiais, olhos e carúncula, assim como a distribuição das brânquias, tipo de sedas e distribuição de acículas notopodiais e neuropodiais.

 

 

 

 

Biologia e distribuição

Hermodice carunculata. Porto Santo. Fotografia de Filipe Henriques

O verme-de-fogo é muito comum e frequente em todo o tipo de substratos. Seja em recifes de coral, por baixo de pedras ou em fendas, áreas rochosas (habitat preferencial) ou fundos arenosos e vasosos, pradarias de algas (Posidonia) e montes submarinos. Também já foram encontradas em objetos flutuantes. Habitam os fundos do Infralitoral até pelo menos os 307 m de profundidade.

Com base na sua anatomia e em estudos de ecologia alimentar, observou-se que esta espécie é carnívora, apesar de haver registos de diferentes tipos de alimentação e comportamentos adoptados por este poliqueta, podendo assim ser considerado omnívoro, alimenta-se de plantas e animais, animais mortos (necrófago) ou mesmo em decomposição (saprófago). Sendo um predador voraz, alimenta-se de todos os animais sésseis que encontrar pela frente, mas naturalmente que tem preferências, se tiver possibilidade de escolha. Como presas preferenciais salientam-se os corais, as gorgónias e as anémonas. As esponjas, ascídias, nudibrânquios, crustáceos pequenos e peixes mortos também são referenciadas na bibliografia como alimento procurado. Em cativeiro aceita fontes de alimento alternativas, como as lulas, os bivalves, krill e misidáceos, podendo atingir dimensões muito maiores do que na natureza. O camarão-limpador Stenopus hispidus, o gastrópode Conus sp. e uma espécie de caranguejo-aranha são referenciados como potenciais predadores. A sua boca com o lábio inferior musculado e projetado para fora, serve para raspar o fundo e possivelmente comprimir os itens alimentares.

Os Amphinomidae apresentam tipicamente sexos separados. Foi observado que a espécie H. carunculata, ao iniciar o processo de reprodução tem um comportamento muito curioso. A fêmea ao dirigir-se à superfície começa a emitir um brilho fosforescente que atrai o macho. Este, por sua vez, inicia um jogo de luzes intermitentes ao visualizar a fêmea. Quando os dois estão próximos, há libertação e subsequente fecundação das células sexuais. Posteriormente morrem.

Pormenor da região posterior de H. carunculata. Fotografia de Pedro Vasconcelos (Madeira).

São designados como vermes-de-fogo pelo facto dos seus espinhos (ou sedas, Chaetae, existentes nos parápodes), ao se partirem no interior de um corte infligido, provocarem uma dor intensa, que arde como fogo. A ferida na pele pode provocar uma inflamação, caso os espinhos não sejam retirados atempadamente. As sedas (chaetae), ocas e finas como agulhas, possuem veneno e são libertadas quando o animal se sente perturbado, seja pelo toque directo ou por movimentos na água, podendo facilmente penetrar na pele. Quando em stresse, este poliqueta estende as sedas para que fiquem mais expostas. As sedas apresentam formas variadas entre espécies. No verme-de-fogo são mais compridas e têm função de defesa e ataque. Esta dupla funcionalidade permite-lhes andar livremente pelo fundo, inclusive durante o dia, o que não acontece com a maioria dos organismos da sua Classe.

Hermodice carunculata é uma espécie de regiões tropicais e subtropicais, com distribuição anfi-atlântica (Oceano Atlântico Oriental e Ocidental), incluindo o Mar Mediterrâneo, costa oriental de África, de Marrocos a Angola, Golfo do México, Mar das Caraíbas e Brasil, Pacífico oriental, Mar do Norte e Mar Vermelho. Está presente nos arquipélagos Macaronésicos dos Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde e nas Bermudas e ilha de Ascensão. Foi originalmente descrita da ilha de Antígua, no Mar das Caraíbas.

No arquipélago da Madeira podem encontrar-se vermes-de-fogo dos géneros Hermodice, Eurythoe e Chloeia.

 


Curiosidades

O verme-de-fogo sobre a esponja Aplysina aerophoba. Madeira. Fotografia de Pedro VasconcelosOs Amphinomidae, de uma forma geral, são menos activos durante o dia, tendo tendência a se manterem enterrados no sedimento ou escondidos por baixo de rochas durante o dia para evitar os predadores. Hermodice carunculata, por sua vez, movimenta-se livremente durante o dia à procura de alimento, tornando-o mais conspícuo do que outras espécies. Isto deve-se à proteção que as suas sedas venenosas lhe conferem e possivelmente algumas toxinas adquiridas de gorgónias.
O verme-de-fogo apresenta, aparentemente, alguma imunidade aos nematocistos dos corais, que todos os dias ingerem em enormes quantidades, sendo depois eliminados pelo intestino.
A sua dieta pode ser composta por animais com dimensões dez vezes superior à sua, pequenos crustáceos, gorgónias ou outros organismos sésseis, o que é surpreendente tendo em conta o seu tamanho. É capaz de engolir uma anémona inteira. A carúncula, um apêndice especializado da cabeça, é usada para localizar presas. Para iniciar a acção predadora este poliqueta tem que entrar em contacto direto com a presa. Muitas vezes, na sua procura frenética pelo alimento, já está em cima da presa que se encontra a uma distância de 2 cm da sua cabeça e nem assim a visualiza. Uma espécie de anémona (Stoichactis helianthis), desenvolveu um comportamento defensivo ao sofrer ataques de vermes-de-fogo. A anémona reage ao contacto com a massa bucal do poliqueta, destacando o disco pedal do substrato onde se encontra ancorada. A anémona consegue posteriormente soltar-se do H. carunculata com o auxílio da ondulação.   

Um estudo realizado com uma comunidade de gorgónias e H. carunculata, para estimar a preferência alimentar que esta espécie de poliqueta apresentava relativamente a várias espécies, confirmou que o verme-de-fogo pode reter toxinas no seu corpo, provenientes das gorgónias, como fonte de proteção adicional às suas sedas venenosas.

Se estes animais forem tocados, os espinhos (sedas calcárias em forma de arpão), partem-se e alojam-se na pele e simultaneamente é libertada uma neurotoxina ácida (veneno) existente nas sedas. Os sintomas podem incluir uma comichão, seguida de dor aguda e por vezes pode ocorrer inflamação e perda temporária de sensibilidade na área afetada.
O nome comum da espécie, provém do facto da dor sentida “arder como fogo” e não apenas porque apresentam cores alaranjadas e avermelhadas.

Se, inadvertidamente ficar exposto aos espinhos (sedas ou pêlos) do verme-de-fogo recomenda-se que os retire, da forma mais rápida possível, aplicando uma fita adesiva na ferida e puxando. Para aliviar parte dos sintomas, massaje a área afetada com álcool etílico, podendo também usar um creme anti-histamínico ou um óleo.

Para a preparação e conservação de poliquetas para estudo, consultar Saldanha (1995) e Fauchald (1977).

 

Bibliografia


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Fauchald, K. 1973. Polychaetes from Central American sandy beaches. Bulletin of The Southern California Academy of Sciences 72 (1): 19-31.

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Nuñez, J. & Talavera, J. A. 1995. Fauna of the Polychaetous Annelids from Madeira. Boletim do Museu Municipal do Funchal 4: 511-530.

Salazar-Vallejo, S. I. & Londoño-Mesa, M. H. 2004. Lista de especies y bibliografía de poliquetos (Polychaeta) del Pacífico Oriental Tropical. Anales del Instituto de Biología, Universidad Nacional Autónoma de México, Serie Zoología 75 (1): 9-97.

Saldanha, L., 1995. Fauna Submarina Atlântica. Portugal Continental, Açores e Madeira. Edição revista e aumentada. Publicações Europa-América. 364 pp.

Wirtz, P. 1995. Unterwasserführer Madeira Kanaren Azoren. Niedere Tiere. Naglschmid Verlag, Stuttgart. 247 pp.

 
Taxonomia
Império: Eukariota
Reino: Animalia
Filo: Annelida
Classe: Polychaeta
Ordem: Amphinomida
Família: Amphinomidae
Género: Hermodice
Espécie: H. carunculata (Pallas, 1766)
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