3 Agosto 2021
pt | en Contactos | Mapa do Site
Página Inicial » Espécie do Mês » Freira da Madeira
Freira da Madeira Versão para impressão Enviar por E-mail

Freira da Madeira. Foto H. Shirihai

A Freira da Madeira (em inglês Zino’s Petrel) é actualmente a ave marinha mais rara e ameaçada do mundo, com uma população estimada em aproximadamente 30 casais. É endémica da ilha da Madeira e a sua reprodução ocorre nas montanhas do maciço montanhoso central da Madeira, entre os picos do Areeiro e Ruivo.

 A Freira da Madeira (Pterodroma madeira) foi descoberta pelo Padre Ernesto Schmitz em 1903, quando alguém lhe trouxe uma ave das serras de Santo António. Nessa época ele era o Director do Seminário da Encarnação, no Funchal e tinha-se tornado num naturalista e coleccionador com uma grande experiência em Ornitologia. Na altura, identificou a ave que lhe trouxeram como sendo a Freira do Bugio (Pterodroma feae ou Oestrellata feae, como na altura a espécie era designada), que ele sabia nidificar no ilhéu do Bugio, Desertas, de onde já tinha obtido alguns exemplares. Contudo, em 1932, Mathews descreveu a ave apanhada por Schmitz em 1903, como uma sub-espécie de Pterodroma mollis, endémica da Madeira e a que deu o nome de Pterodroma mollis madeira. À subespécie do Bugio chamou Pterodroma mollis deserta, ficando a subespécie nominal, Pterodroma mollis mollis, restrita às aves habitando o Oceano Atlântico Sul. Na sequência de trabalhos posteriores verificou-se que P. madeira era uma espécie distinta de P. mollis, o mesmo acontecendo com P. deserta.
O Padre Schmitz deixou a Madeira em 1908, para ir trabalhar na Terra Santa e pouco mais se ouviu falar da Freira da Madeira ao ponto de, na década de 1950, ter sido considerada extinta pese embora em 1941 e 1951 dois juvenis da Freira da Madeira terem sido encontrados no Funchal, com certeza atraídos pelas luzes da cidade e trazidos para o Museu de História Natural.

Área de nidificação da freira da Madeira. Foto F. Zino     Pastores com freiras aquando da sua redescoberta em 1969. Foto P. A. Zino


Em 1968 Alexandre Zino, que na altura já se interessava muito pelo estudo e conservação das aves marinhas, começou a entrevistar os pastores da área do Curral das Freiras, assim como os que tinham gado na serra do Areeiro. A todo este pessoal ele tocava as gravações dos sons das Freiras do Bugio (P. deserta) feitas nessa ilha. Depois de muitas entrevistas feitas encontrou finalmente um homem que conhecia os sons, o Lucas, que vivia no Curral das Freiras e que identificou os sons como o canto das almas dos pastores que tinham morrido nas montanhas. Este pastor identificou as áreas em que tinha ouvido o som e por essa razão em Abril de 1969 Jerry Maul, Alec Zino e Frank Zino, desceram a vereda do Pico do Areeiro à noite e conseguiram ouvir o som que há muito desejavam ouvir. A Freira da Madeira não estava extinta e tinha assim sido redescoberta a área de nidificação. Um grande avanço na investigação.

 

Identificação


Comparação das cabeças da freira da Madeira (esquerda) e da freira do Bugio (direita). Fotos F. ZinoAve típica da família Procellariidae, de tamanho médio (Comprimento total 32-34 cm; envergadura de asas 80-86 cm), possui um bico curto e espesso, recurvado na ponta, de cor negra. A plumagem da cabeça, dorso e asas é cinzenta cor de chumbo, sendo mais clara na região da cauda. A garganta, peito e todo o ventre são brancos. As penas cinzentas do pescoço formam uma espécie de colar que é interrompido no peito. A patas são negras e a membrana interdigital azulada. No mar efectuam voos rápidos por cima das ondas. Esta espécie é muito parecida com a freira do Bugio, P. deserta, distinguindo-se desta por ter o bico mais pequeno, bem como menor comprimento e envergadura de asas. No mar e em voo a sua identificação é bastante difícil.

Pormenor da asa da freira da Madeira. Foto F. Zino     Freira da Madeira no mar. Foto. H. Shirihai     Freira da Madeira no mar. Foto. H. Shirihai

 

Biologia e distribuição

Como todos os outros membros desta família, a freira da Madeira é uma ave marinha pelágica, isto é, vive em permanência no mar, necessitando apenas de terra firme para efectuar a sua reprodução. Os casais procedem à escavação de galerias, por vezes com mais de 1 metro de comprimento, em mangas inacessíveis do maciço montanhoso central da Madeira, entre os picos do Areeiro e Ruivo. Esta actividade decorre a partir de Março. Entre Maio e Junho a fêmea põe apenas um ovo, que é incubado por ambos os membros do casal, alternadamente. No final de Outubro, princípio de Novembro os juvenis abandonam os ninhos para dar início à sua vida no mar. A idade adulta só é atingida 5 a 7 anos após o nascimento e a sua longevidade pode atingir 20 anos.

Juvenil de freira da Madeira. Foto F. Zino

A população de freira da Madeira é muito reduzida, estimando-se em 30-40 ninhos e um efectivo total não superior a 200 indivíduos.
Enquanto se encontram a nidificar, as freiras da Madeira saem dos ninhos e vão para o mar se alimentar, deslocando-se para Norte até às ilhas Britânicas, para Sul até Cabo Verde e para oeste até aos Açores. Fora da época de nidificação as freiras da Madeira deslocam-se preferencialmente para Sul, indo até Ascensão e Santa Helena e até ao nordeste brasileiro. Estes dados foram obtidos a partir de minúsculos dispositivos electrónicos (geo-localizadores) colocados na pata da ave, num trabalho coordenado pelo Dr. Francis Zino e envolvendo para além do Museu de História Natural do Funchal, o British Antarctic Survey.

Geo-localizador aplicado na pata da freira. Foto F. Zino     Migrações da freira da Madeira. A – durante a época de reprodução; B – durante a migração anual. (Zino et al., 2011)


Curiosidades


Primeira freira da Madeira anilhada. Foto F. ZinoNo princípio dos anos 80 houve um certo interesse por parte de alguns ornitólogos estrangeiros sobre a colónia das aves na Madeira, ignorando o trabalho que já estava em curso e querendo trabalhar com essas aves e afirmando inclusive ter encontrado colónias em áreas que se sabia que não existiam, o que levou a que um pequeno grupo de interessados se começasse a reunir para discutir estes problemas. Esse grupo era formado por Alec Zino, Frank Zino, Manuel Biscoito (Museu de História Natural do Funchal), Henrique Costa Neves (Parque Natural da Madeira), Donato Caires, Miguel Moreira, Ted Gerrard e Elizabeth Zino. Este era um grupo embrionário que viria a tornar-se no “Projecto de Conservação da Freira – FCP (Freira Conservation Project)”.
No dia 12 de Junho de 1986, Manuel Biscoito e Frank Zino conseguiram apanhar uma Freira da Madeira à noite, que foi anilhada com a anilha nº JO1150. Pesava 185gr e foi a primeira Freira da Madeira a ser anilhada. A 12 de Setembro de 1987 a área foi revisitada e Henrique Costa Neves apanhou um juvenil da Freira da Madeira. Esta foi fotografada, medida, como também anilhada antes de ser colocada no seu ninho. Foi a primeira ave juvenil da Freira da Madeira a ser anilhada.

Anilhagem da freira da Madeira. Foto M. Biscoito


Nesta altura já era claro que a colónia estava a ser severamente atacada por ratos, daí que o FCP, com o apoio do Dr. Andy Swash, do Ministério da Agricultura, Pescas e Alimentação do Reino Unido, e do Dr. Alan Buckle, que nessa altura trabalhava para a Divisão de Protecção de Plantas da empresa fito-farmacêutica britânica ICI, conseguiu montar um esquema de desratização da área de nidificação, que manteve em funcionamento até ao mesmo passar para a alçada do Parque Natural da Madeira em 2001, mantendo-se até hoje.
No dia 1 de Julho de 1991 foi encontrada uma situação devastadora. Gatos tinham entrado na colónia da manga 1987, onde mataram 10 adultos. Isto representava uma grande percentagem da população nidificante a nível mundial. Com a ajuda da ICI, foi possível arranjar de imediato armadilhas para gatos, que até hoje continuam a funcionar. Todos os anos são removidos vários gatos da área. Note-se que estes animais são gatos domésticos abandonados nas serras e que se tornam selvagens e como tal extremamente perigosos para as aves em geral, não apenas a freira.
Em Agosto de 2011 a colónia de freiras da Madeira voltou a sofrer um sério revés. O terrível incêndio que ocorreu nessa altura na Madeira destruiu por completo a maior parte das mangas onde a espécie nidifica, tendo morto todos os juvenis desse ano.

Local de nidificação da freira da Madeira antes do incêndio de Agosto de 2010. Foto F. Zino     Local de nidificação da freira da Madeira após do incêndio de Agosto de 2010. Instalação dos ninhos artificiais pelo Parque Natural da Madeira. Foto F. Zino


O Parque Natural da Madeira iniciou um grande esforço de recuperação do habitat, tendo inclusivamente instalado ninhos artificiais. O resultado deste esforço é aguardado com muita expectativa nestes próximos anos.

 

Referências bibliográficas

Shirihai, H., V. Bretagnole & F. Zino, 2010. Identification of Fea’s, Desertas and Zino’s Petrels at sea. Birding World, 23(6): 239-275.

Zino, A. & F. Zino, 1986. Contribution to the study of the petrels of the genus Pterodroma in the archipelago of Madeira. Boletim do Museu Municipal do Funchal, 38(180): 141-165.

Zino, F. & M. Biscoito, 2011. Fires destroy breeding habitatof Zino’s Petrel. Oryx, 45(1): 14.

Zino, F., R. Brown & M. Biscoito, 2008. The separation of  Pterodroma madeira  (Zino’s Petrel) from Pterodroma feae (Fea’s Petrel) (Aves: Procellariidae). Ibis, 150(2): 326-334.

Zino, F., P. Oliveira, S. King, A. Buckle, M. Biscoito, H. Costa Neves & A. Vasconcelos, 2011. Conservation of Zino's petrel Pterodroma madeira in the archipelago of Madeira. Oryx, 35(2): 128-136.

Zino, F., R. Phillips & M. Biscoito, 2011. Zino’s Petrel movements at sea – a preliminary analysis of datalogger results. Birding World, 24(5): 216-219.

 
Taxonomia
Império: Eukariota
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Subfilo: Vertebrata
Classe: Aves
Ordem: Procellariiformes
Família: Procellariidae
Género: Pterodroma
Espécie: P. madeira Mathews, 1934
Autor desta ficha
Manuel José da Conceição Biscoito Manuel José da Conceição Biscoito
Director do Departamento de Ciência e Conservador de Vertebrados do Museu de História Natural do Funchal
Saiba mais em:
Mapa do Site | Sugestões | Condições de utilização | Privacidade | © 2021, Municipio do Funchal Facebook | RSS