3 Agosto 2021
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Ofiúro, Ophioderma longicaudum. Baixa do Carneiro (Madeira), 2005. Fotografia de Pedro Vasconcelos.

O ofiúro, Ophiderma longicaudum, espécie dotada de uma notável vivacidade e resistência, é o maior dos membros da classe Ophiuroidea no arquipélago da Madeira. Com uma forma de locomoção muito peculiar e movimentando-se com extrema agilidade e rapidez, faz parte de um grupo de predadores carnívoros, muito vorazes e activos.

Ophioderma longicaudum. Baixa do Carneiro (Madeira), 2005. Fotografia de Pedro Vasconcelos.

Os ofiúros são animais invertebrados, de braços cilíndricos e serpentiformes, extremamente vivazes que apresentam uma enorme resistência. Sendo predadores carnívoros, muito vorazes e ágeis, capazes de se mover com grande rapidez, são, de entre os equinodermes, o grupo que possui uma maior variedade de estratégias alimentares. Uma mesma espécie pode apresentar mais do que uma forma de conseguir alimento. É um dos aspectos que mais contribui para os elevados números que uma espécie deste grupo pode atingir numa determinada área geográfica.

A espécie, Ophioderma longicaudum, necessita de áreas abrigadas e sombrias para se refugiar, escondendo-se em fendas ou por baixo de rochas, sendo normalmente mais activa durante a noite, ao se alimentar. Relativamente à reprodução, os ofiúros podem ser hermafroditas e simultaneamente “vivíparos”. Quando se encontram em stress, podem fragmentar um dos braços que volta a regenerar.

Os ofiúros fazem parte dos equinodermes (Echinodermata), grupo de elevado interesse científico, que sempre foram um material excelente para estudos de biologia experimental e embriologia, pela sua elevada resistência em aquário. Este grupo de animais também desempenha um papel fundamental na economia do mar, podendo atingir números excepcionalmente elevados, a nível populacional: por um lado como alimento para peixes e outros animais, por outro a competir pelo alimento disponível, especialmente quando podem “devorar” elevadas quantidades de organismos em estado juvenil, particularmente invertebrados.

 

Identificação


Ophioderma longicaudum. Desenho de Helena Encarnação (Museu de História Natural do Funchal)

Como características diagnósticas dos indivíduos da espécie Ophioderma longicaudum salientam-se: um disco central subpentagonal, provido de 5 braços, finos flexíveis e articulados, cilíndricos e serpentiformes, bem diferenciados do disco; o disco revestido por grânulos muito finos de ambos os lados (oral e aboral), exceptuando as placas orais e, por vezes, as radiais; os braços possuem um esqueleto interno muito semelhante a uma coluna vertebral, com peças pares, as placas ambulacrárias; O disco e os braços estão cobertos por um esqueleto dérmico, com placas regulares (a forma das placas e como se interligam são de grande importância na taxonomia da classe Ophiuroidea); pés ambulacrários (sem ventosas, com papilas sensoriais) em 2 séries de pequenos poros ao longo da zona ventral dos braços; boca ventral em forma de estrela; papilas orais numerosas (7-9); placas dorsais rectangulares, contíguas, espessas, subdivididas em 2 ou mais partes, normalmente desiguais; placas ventrais quadrangulares; 9 espinhos não aguçados nos braços; não possuem pedicelários; sem órgãos intestinais e genitais nos braços; abertura anal ou intestinal ausente (as partículas não digeridas são expelidas pela boca); cecos hepáticos ausentes; com dois pares de fendas genitais em cada zona inter-radial; possuem um saco de paredes estreitas, a “bursa”, com função respiratória. Os Ophioderma possuem 2 fendas “bursais” ou genitais de cada lado do braço. Os órgãos genitais situam-se na base da “bursa”.


Apresentam uma coloração variável: castanho-escuro uniforme no lado aboral, mais claro que o oral; o disco pode apresentar manchas mais escuras ou mais claras e os braços podem apresentar anéis de cor mais escura com pequenas manchas mais claras ou mais escuras. Por vezes a coloração é muito mais clara, com pequenas manchas escuras no lado aboral, sendo o lado oral avermelhado. Alguns indivíduos apresentam predominantemente a cor vermelha, com ou sem ligeiras variações e pequenas manchas castanhas sobre o disco e braços. As cores mantêm-se em álcool, em particular o preto e o castanho. É provável que haja uma relação entre a variação cromática que apresentam e o meio ambiente e a profundidade.
O disco pode atingir 25 mm de diâmetro e os braços 150 mm de comprimento.

 

Biologia e distribuição

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A espécie Ophioderma longicaudum distribui-se pelo Mar Mediterrâneo e Oceano Atlântico Oriental, desde a Bretanha ao Equador, incluindo Madeira, Açores, Canárias e Cabo Verde. Encontram-se em fundos rochosos, arenosos, pradarias de zoosteras e algas, em fundos coralíferos e argilosos (Mar Mediterrâneo). Habitam os fundos do infralitoral ao circalitoral até aos 100m de profundidade.

A alimentação dos ofiúros é constituída por uma grande variedade de pequenos animais, particularmente moluscos e pequenos invertebrados, que são transportados para a boca pelos braços. Esta espécie, O. longicaudum, alimenta-se particularmente de vermes poliquetas, para além de outros pequenos invertebrados. Também se alimentam de detritos, apresentando por vezes hábitos necrófagos.

As espécies pertencentes à classe Ophiuroidea podem ser simultaneamente hermafroditas e “vivíparos”. Nas espécies que se reproduzem por este tipo de “viviparidade”, por analogia com a viviparidade dos vertebrados onde a fertilização é interna e as crias desenvolvem-se no interior do corpo da progenitora, o desenvolvimento ocorre no interior das “bursas” (saco no interior dos braços também com função respiratória e ligado aos órgãos genitais) e os juvenis permanecem aí até atingirem um tamanho considerável. No entanto, a maioria dos ofiúros possuem uma fase larvar livre, pelágica, normalmente com uma duração de poucas semanas. Alguns têm mesmo desenvolvimento directo, sem estado larvar pelágico. A espécie Ophioderma longicaudum reproduz-se entre a primavera e o verão. Num estudo no Mediterrâneo verificou-se que os indivíduos desta espécie atingiam a maturidade sexual entre Maio e Junho, ocorrendo a reprodução de Março a Abril (Mar Adriático). Num estudo com a espécie Ophiura texturata sobre taxa de crescimento, verificou-se que os ofiúros podiam atingir a maturidade sexual aos dois anos e um tamanho máximo aos três.

Todos os ofiúros possuem uma forte capacidade de regeneração. Conseguem regenerar facilmente os braços quando os perdem, assim como partes do disco e dos órgãos internos. Algumas espécies propagam-se assexuadamente, sendo o disco dividido em duas partes iguais, cada metade indo regenerar logo de seguida a parte que falta do disco e dos braços, havendo assim a formação de dois novos indivíduos. Esta forma de propagação é particularmente comum no género Ophiactis (também presente nos mares da Madeira).

 


Curiosidades


O. longicaudum em movimento. Baixa do Carneiro (Madeira), 2005. Fotografia de Pedro Vasconcelos

Estes organismos possuem uma forma muito peculiar de locomoção através de movimentos específicos e extremamente rápidos com os seus braços flexíveis. Observou-se que os braços eram “atirados” para a frente (na direcção do movimento) aos pares, puxando o animal para a frente num movimento súbito, quase como “aos solavancos”. Um dos braços, qualquer um deles, encontrava-se sempre dirigido ou para trás ou para a frente (do movimento) e não participava activamente na locomoção. Esta forma de locomoção é particularmente característica de espécies que vivem em substrato rochoso (Ophioderma, Ophiura, etc). Algumas espécies de ofiúros, particularmente Ophiocomina nigra e Amphipholis squamata (espécies de substrato arenoso da fauna madeirense) têm a capacidade de trepar com o auxílio dos pés ambulacrários (observado em aquário).


Fenómenos de fosforescência são também observados em várias espécies de ofiúros, nomeadamente Amphiura filiformis, Amphipholis squamata, Ophiopsila annulosa e Ophiacantha bidentata, que também se encontram no mar da Madeira. A luz fosforescente surge como pontos luminosos distribuídos em séries de dois ao longo dos braços. Regra geral esta luz só é emitida quando o animal se sente incomodado.

Outra curiosidade desta classe de invertebrados é uma das suas formas de reprodução, por um tipo de “viviparidade”. Esta ocorre no interior das “bursas” (saco no interior dos braços), onde os juvenis permanecem até atingirem um tamanho considerável.


Todas as espécies de ofiúros têm uma notável capacidade de regeneração, assim como todos os equinodermes. Ao possuírem esta capacidade de regenerar (consecutivamente) braços fragmentados ou perdidos, conseguem através da amputação voluntária (autotomia) ou involuntária escapar de predadores. Uma estrela-do-mar, por exemplo, cortada radialmente em várias partes, ao fim de alguns meses ou até um ano, regenera em tantas estrelas quantas foram as partes separadas. O corte de um braço (com uma porção do disco e de tecido nervoso) vai, em condições óptimas, regenerar da mesma forma.

 

Bibliografia


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Wirtz, P. 2006. Ten invertebrates new for the marine fauna of Madeira. Arquipélago. Life and Marine Sciences 23A: 75-78.

 
Taxonomia
Império: Eukariota
Reino: Animalia
Filo: Echinodermata
Subfilo: Asterozoa
Classe: Ophiuroidea
Ordem: Ophiurida
Família: Ophiodermatidae
Género: Ophioderma
Espécie: O. longicaudum (Retzius, 1805)
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