3 Agosto 2021
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Espada preto Versão para impressão Enviar por E-mail

 

Aphanopus carbo

Na cozinha tradicional madeirense, o peixe espada preto é sem dúvida o mais emblemático, sendo hoje prato obrigatório em todos os restaurantes. Este peixe, que habita em média profundidades entre os 800 m e os 1200 m, fez da Madeira o primeiro local no mundo a explorar comercialmente uma espécie de profundidade.

Câmara de Lobos, ca. 1930 Funchal, ca. 1930

Não se sabe ao certo quando é que o peixe espada preto começou a ser pescado nas águas do arquipélago da Madeira. Manoel Thomás, no seu poema “A Insulana”, datado de 1635, faz uma referência à espada, entre outros peixes costeiros e do alto. Contudo só em 1839 é que esta espécie é descrita para a ciência, pelo naturalista Inglês Rev. Richard Thomas Lowe, que lhe dá o nome de Aphanopus carbo, numa clara alusão ao facto de ser uma espécie sem barbatanas pélvicas visíveis (Aphanopus, do grego, sem pés) e de cor negra (carbo, do latim, negro). Certo é que foram os pescadores da Madeira, que à época pescavam os tubarões de profundidade para deles extrair óleo para iluminação e peles para lixas, que por acaso descobriram o peixe espada preto, dando assim início a uma pescaria artesanal que perdurou até aos dias de hoje, fazendo da Madeira o primeiro local no mundo a desenvolver uma técnica de pesca dirigida a uma espécie de profundidade.

Barco de pesca da espada Barco tradicional de pesca da espada

Identificação


Aphanopus carboCorpo muito alongado e comprimido, sem escamas. Cabeça com perfil rectilíneo ligeiramente inclinado. Nuca achatada e sem crista sagital. Olho grande. Boca grande, com dentes fortes de tipo canino, sendo os quatro anteriores muito mais desenvolvidos. Maxilar inferior projectando-se para alem do superior. Barbatana dorsal muito extensa, dividida em duas partes, a primeira com espinhos seguida imediatamente pela segunda composta por raios moles. Uma barbatana anal, precedida por dois espinhos fortes em forma de adaga. Sem barbatanas pélvicas. Barbatana caudal pequena, em forma de V. Coloração dourada a acobreada iridescente em vivo, tornando-se completamente negra após a morte.

Biologia e distribuição

 

Aphanopus carbo

 Espécie batipelágica, ocorrendo normalmente entre os 800 e os 1200 metros de profundidade. Pode atingir até 120 cm de comprimento total. Carnívora voraz, alimenta-se de peixes, crustáceos e moluscos cefalópodes batipelágicos. Reprodução ovípara, entre Outubro e Fevereiro. Ocorre exclusivamente no Oceano Atlântico Norte, desde a Islândia até Marrocos, ao longo da Crista Médio-Atlântica até ao Banco Meteor (Sul dos Açores) e desde a Península do Labrador até à Florida, incluindo as Bermudas. Está presente em todos os arquipélagos Macaronésicos, excepto Cabo Verde. É muito comum.

 

Aphanopus intermedius

Nos arquipélagos da Madeira, Açores e Canárias pode ainda ser encontrada uma segunda espécie de peixe espada preto, Aphanopus intermedius Parin, 1983, o qual é pescado conjuntamente com A. carbo, embora em menor quantidade. A distinção entre as duas espécies é muito difícil para um leigo, uma vez que diferem entre si apenas pelo número de raios da barbatana dorsal e pelo número de vértebras, havendo contudo indivíduos cuja identificação segura apenas é possível através de análises genéticas. Esta espécie ocorre nas vertentes insulares e continentais, desde a Madeira até à África do Sul.


Curiosidades e usos


Descarga na lota do FunchalNa Madeira esta espécie é alvo de uma pescaria tradicional importante (cerca de 3000 toneladas por ano), que se desenrola há mais de 200 anos, constituindo assim a Madeira o primeiro local no mundo onde foi explorado comercialmente um recurso de profundidade. Esta pescaria realiza-se com recurso a espinheis derivantes, no início verticais e actualmente horizontais, com anzóis iscados com pota (lula) ou chicharro. O peixe espada preto possui elevadas qualidades gastronómicas e constitui um prato típico da cozinha madeirense, preparado de diferentes formas. Apesar do seu elevado interesse comercial, graças à sua abundância, atinge um valor comercial moderado no mercado.


Peixe espada preto gratinado no forno com tomate, cebola e funcho
(Receita para 4 pessoas gentilmente cedida por Conceição Ornelas)

Bom apetite!Ingredientes:
1 filete inteiro de espada fresca ou 4 porções de filete congelado
1 bolbo de funcho
2 tomates médios
1 cebola grande
4 fatias finas de queijo flamengo, Edam, Gouda ou Emental.
1 limão
Azeite virgem
Vinagre de estragão
Sal
Pimenta preta (moinho)

Preparação:
Parta o filete em 8 porções, coloque num prato e tempere com sal, pimenta preta moída e limão e deixe marinar durante meia hora.
Pique a cebola e o tomate e misture, temperando com sal e vinagre de estragão.
Descasque o bolbo de funcho de forma a obter capas individualizadas.
Num prato de forno com borda alta, coloque um fio de azeite no fundo. Disponha as capas do funcho e coloque as porções de filete por cima, criando porções individuais. Por cima dos filetes coloque uma fatia de queijo e cubra com a mistura da cebola e tomate. Deite um fio de azeite por cima e leve ao forno previamente aquecido a 250ºC durante 10-15 minutos. Se utilizar um grelhador de forno, deixe o queijo fundir, mas tenha cuidado para não queimar, cobrindo o prato com folha de alumínio durante os primeiros 5 minutos de cozedura.
Sirva acompanhado de arroz basmati e feijão verde suado. Bom apetite!

Referências bibliográficas

Biscoito, M., J. Delgado, J. A. González, S. Stefanni, V. M. Tuset, E. Isidro, A. García-Mederos and D. Carvalho:
2010. Morphological characterization and genetic validation of two sympatric species of Trichiuridae, Aphanopus carbo and A. intermedius, from the northeastern Atlantic. Cybium, in press.

Maul, G. E.,:
1950. A espada preta. Actas da I Conferência da Liga para a Protecção da Natureza, pp. 62-71. Pubs. da Liga para a Protecção da Natureza, IV. Lisboa.

Nakamura, I. and Parin, N. V.:
1993. FAO Species Catalogue. Vol. 15. Snake mackerels and cutlassfishes of the world (Families Gempylidae and Trichiuridae). An annotated and illustrated catalogue of the snake mackerels, snoeks, escolars, gemfishes, sackfishes, domine, oilfish, cutlassfishes, scabbardfishes, hairtails, and frostfishes known to date. FAO Fisheries Synopsis, No. 125, Vol. 15, 136 p., 200 figs. Rome.

Parin, N. V.,:
1995. Three new species and new records of cutlass fishes of the genus Aphanopus (Trichiuridae). Journal of Ichthyology, 35(2): 128-138.

 
Taxonomia
Império: Eukariota
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Subfilo: Vertebrata
Classe: Actynopterygii
Ordem: Perciformes
Família: Trichiuridae
Género: Aphanopus
Espécie: A. carbo Lowe
Data: 1839
Autor desta ficha
Manuel José da Conceição Biscoito Manuel José da Conceição Biscoito
Director do Departamento de Ciência e Conservador de Vertebrados do Museu de História Natural do Funchal
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