24 Janeiro 2020
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50º Aniversário da Expedição do Museu de História Natural do Funchal às Selvagens em Julho de 1963 Versão para impressão Enviar por E-mail
Fig2 Celebra-se este ano o 50º aniversário da expedição científica às Ilhas Selvagens organizada pelo Museu de História Natural do Funchal, a primeira expedição científica multidisciplinar dos tempos modernos àquelas ilhas.

 As Ilhas Selvagens, pequeno arquipélago situado a 160 milhas náuticas a Sul da Madeira, despertaram desde sempre o interesse de naturalistas e cientistas. A primeira visita com fins de carácter científico foi feita pelo Capitão James Cook em 1768 e em 1778 Francis Masson, Botânico do jardim botânico real de Kew, efetuou colheitas de plantas nas Selvagens.

Durante os séculos XVIII, XIX e até meados do século XX, as visitas de cientistas às Selvagens foram sempre de carácter esporádico e nunca com o intuito de estudar com continuidade a fauna lá existente, nomeadamente as aves marinhas, que durante uma parte do ano se encontram nas ilhas a nidificar.

Tendo consciência da precariedade da informação científica existente, Günther E. Maul, Diretor do Museu Municipal do Funchal e o Major na reserva C. H. C. Pickering, botânico amador, decidiram em 1963 organizar a primeira expedição científica multidisciplinar às Ilhas Selvagens. Para o efeito foi fretado o navio “Persistência” da Empresa Baleeira do Arquipélago da Madeira e foram obtidos apoios das empresas ICI – Imperial Chemical Industries (Reino Unido) e Empresa de Cervejas da Madeira, para além do apoio da Câmara Municipal do Funchal, entidade tutelar do Museu.

Esta expedição, que durou 10 dias, contou com a presença de cientistas de diversas especialidades, entre os quais os Drs. Christian Jouanin e Francis Roux, do Museu de História Natural de Paris, os quais a partir daí se mantiveram intimamente ligados ao estudo da fauna ornitológica das Selvagens. Desta expedição resultou a publicação, no Boletim do Museu Municipal do Funchal, de 9 artigos científicos, sobre as aves, insetos, plantas e rochas das Selvagens, constituindo um volume com 170 páginas.

Esta expedição marca, não só o início do estudo sistemático das aves marinhas, estudo esse que dura até aos nossos dias e que ao todo gerou mais de 500 páginas de publicações científicas e envolveu mais de 100 cientistas, mas também um momento crucial na conservação da natureza em geral e da biodiversidade das Selvagens em particular.

Integrado nesta expedição, como observador, seguia um entusiasta do Mar, Paul Alexander Zino, o qual, através do estreito contacto com os cientistas, veio a descobrir a grande vocação da sua vida, a ornitologia. Alec Zino conseguiu em 1967 adquirir os direitos de caça às cagarras, com o propósito de não se caçar e deste modo recuperar a colónia destas aves que estava depauperada por uma caça anual de mais de 30.000 aves juvenis, durante mais de 100 anos. Construiu em 1967/68 uma pequena casa na Selvagem Grande, a qual se tornou a base para os cientistas que lá se deslocavam.

Em 29 de outubro de 1971 foi publicado no Diário do Governo o Decreto-Lei nº 458/71, que estabelecia a Reserva Natural das Ilhas Selvagens, como reserva integral. Mas, como o tempo veio mais tarde a provar, a conservação da Natureza não se faz apenas por decreto. As Selvagens permaneceram por alguns anos na mesma situação em que se encontravam à data da criação da Reserva, ou seja, sem qualquer espécie de fiscalização. As expedições de anilhagem continuaram, bem como os estudos das aves, o que proporcionava uma presença humana em várias alturas da primavera e verão. Com exceção das expedições chefiadas pelo Prof. Santos Júnior, da Universidade do Porto, que se efetuaram com navios da Armada, as restantes deslocações de cientistas foram feitas utilizando os iates de João Borges e Rufino Menezes e muitos barcos de pesca, com destaque especial para o "D. Carlos", na época um dos mais modernos atuneiros na Madeira, pertencente a João Borges e S. Passos de Gouveia e o “Persistência”, alugado à Empresa Baleeira do Arquipélago da Madeira e tudo isto apenas possível com o empenho e financiamento de Alec Zino. Com a ausência de vigilância permanente, a casa de abrigo foi várias vezes assaltada.

Só em 1976 o Estado se predispôs a colocar dois guardas na Selvagem Grande, mas apenas entre abril e outubro. Esta situação durou até 1982, altura em que é construída a primeira casa dos guardas. Até 1989, altura em que o Parque Natural da Madeira assume plenamente a gestão da reserva, Alec Zino é muitas vezes solicitado a resolver os problemas da mesma, incluindo contributos financeiros para o seu bom funcionamento.

A expedição do Museu de 1963 constitui assim o facto mais marcante da vida das Selvagens, ao ser por um lado o catalisador dos estudos científicos que decorrem até aos dias de hoje e ao mesmo tempo a responsável pela sua conservação, através do interesse desvelado de P. A. Zino, sem o qual não estaríamos talvez hoje perante uma área protegida detentora de um galardão Europeu e com a soberania Portuguesa completamente consolidada.

A Expedição do MMF de 1963 às Selvagens decorreu de 15 a 27 de julho de 1963 e envolveu Günther E. Maul, C. H. Pickering (MMF); Christian Jouanin e Francis Roux, ornitólogos do Museu Nacional de História Natural de Paris; W.H. Tams, entomólogo e F. Uhlman, ornitólogo, do Museu de História Natural de Londres; E. Weinreich, entomólogo e W. Meinel, ictiólogo da Universidade Justus Liebig de Giessen (Alemanha); J. Honorez, geólogo do Centro Nacional de Vulcanologia de Bruxelas; P. A. Zino, Francis Zino, Timothy Maul, Luiz de Sousa, Álvaro Remígio de Sousa (Médico da expedição) e Eleutério Reis (Comandante do navio “Persistência”).

Manuel José Biscoito
Conservador

 

 

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