17 Junho 2021
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Alface do mar Versão para impressão Enviar por E-mail

 

As algas (do latim: algae, "planta marinha") são polifiléticas, não formando, portanto, um grupo coesivo, com diferentes origens ao longo do tempo. São estudadas pela ficologia e atualmente estão divididos em 9 filos. São seres avasculares, uni ou multicelulares, que constituem um grande e diversificado grupo de espécies fotoautotróficas, ou seja, que produzem a energia necessária ao seu metabolismo através da fotossíntese. Algumas espécies apresentam tecidos diferenciados, mas não possuem raízes, caules ou folhas verdadeiras.

Na ilha da Madeira existem aproximadamente 360 espécies de macroalgas, sendo as algas vermelhas (rodófitas) mais abundantes, seguidas das castanhas (feofíceas) e das verdes. As algas verdes são conhecidas como clorófitas (Filo Chlorophyta) devido à sua aparência verde originada do seu pigmento fotossintético mais abundante, clorofila.
Na Madeira são registadas originalmente três espécies do género Ulva, nomeadamente, Ulva fasciata Delile, 1813, Ulva lactuca Linnaeus, 1753 e Ulva rigida C. Agardh. 1823. Em 2003 as espécies do género Enteromorpha, foram transferidas para o género Ulva. Na Madeira foram registadas originalmente 8 espécies de Enteromorpha, agora integrados no género Ulva.
A espécie Ulva lactuca (Figura 1) é uma macroalga membranosa distribuída mundialmente e conhecida como alface do mar.

Fig. 1: Ulva cf. lactuca numa poça da zona intertidal; Madeira/Foto: Manfred Kaufmann

 

 

Identificação

Ulva lactuca apresenta talo verde laminar, foliáceo, lobulado, formado por duas camadas de células, fixado ao substrato por rizoides. Podem atingir mais de 50 cm de comprimento. Esta é uma espécie dioica possuidora de talos produtores de gâmetas masculinos e femininos que podem ser distinguidos pela tonalidade das margens das lâminas que ficam verdes amareladas para os gametófitos masculinos e verde escuro para os gametófitos femininos. Podem se reproduzir por reprodução vegetativa por fragmentação ou por crescimento de novos talos na vertical a partir de células basais.
A forma das lâminas deste género é muito variada, podendo ser circular e ovalada com formas longas e estreitas que podem ser microscópicas ou até atingir 65 cm de comprimento, apresentando uma textura fina e sedosa, com margens cerosas e onduladas. As lâminas são formadas por apenas duas camadas de células com uma espessura que muito raramente ultrapassa os 40 micrómetros.
A espécie Ulva lactuca tem como principais caraterísticas lâminas de coloração verde brilhante (Fig. 2). Como são muito foto-dependentes, têm por hábito serem encontradas em locais com grande luminosidade fixando-se a substratos rochosos situados na zona intertidal, até cerca de 10 metros de profundidade. A U. lactuca tem semelhanças à U. rigida e nem sempre são fáceis de distinguir.

Fig. 2: Ulva cf. lactuca; Madeira/Foto: Manfred Kaufmann

 

Biologia

Ulva lactuca é uma clorófita, marinha, distribuída mundialmente, que adquire a sua cor dos pigmentos de clorofila a e b que lhe dão o seu tom verde claro. Devido ao seu comportamento foto autotrófico, elas adquirem energia através da luz do sol por fotossíntese e adquirem a sua fonte de carbono através dos nutrientes presentes na água.
A alface-do-mar é encontrada em todos os níveis de zonas intertidais (entre marés), embora em latitudes mais a norte e, em habitats de água salobras, é encontrada no raso sublitoral. Em condições muito abrigadas, plantas que se desprenderam do substrato podem continuar a crescer, formando extensas comunidades flutuantes. A planta tolera condições salobras e pode ser encontrada em substratos apropriados em estuários.
A fotossíntese em macroalgas clorófitas ocorre à semelhança do mecanismo das plantas C3. É a partir da atividade fotossintética que as macroalgas geram energia e sintetizam outros compostos dissolvidos na água, os quais são importantes para o seu crescimento e reprodução. A macroalga U. lactuca alcança melhores taxas fotossintéticas em salinidades mais baixas. Relação da demanda de nutrientes, intensidade luminosa, temperatura e baixa salinidade são fatores que contribuem no crescimento de algas do género Ulva.
Diversos estudos demonstram que a Ulva não desenvolve a sua forma típica na ausência de bactérias apropriadas, apenas se desenvolve em colónias em forma de calos compostas por células indiferenciadas, com deformações nas suas paredes. Posto isto, conclui-se que esta alga depende das bactérias numa relação de simbiose obrigatória.
O ciclo de vida do género Ulva é complexo e possui alternância de gerações. Os isogâmetas biflagelados formam-se a partir de determinadas células do individuo haploide (gametófitos). Estes gâmetas libertam-se e fundem-se para originar um zigoto diploide que posteriormente forma uma planta diploide chamada esporófito. Do esporófito são libertados os zoósporos, com 4 flagelos, formados por meiose. Estes, só depois de algum tempo é que se fixam a um substrato e germinam para formar um indivíduo haploide. Os gâmetas são capazes de se fixar e germinar sem se fundirem.

 

Curiosidades

Esta macroalga verde tem vindo a ser estudada como uma fonte potencial de energia aquática devido às suas altas taxas de crescimento e alto teor de hidratos de carbono e por isso é um foco para a produção de bioenergia.
Algas nocivas são uma ameaça para pesca, saúde pública e economia à volta do mundo. O supercrescimento de macroalgas também pode ser considerado prejudicial uma vez que podem competir e substituir as ervas marinhas e cobrir outros habitats bentónicos. No entanto, a Ulva lactuca inibe o crescimento de sete espécies de algas nocivas produtoras de florescências, nomeadamente Aureococcus anophagefferens, Chattonella marina, Pseudo-Nitzschia multiseries, Cochlodinium polykrikoides, Karenia brevis, Karlodinium veneficum, e Prorocentrum minimum, e é por isso que esta macroalga tem potencial de restringir a ocorrência destas algas nocivas.
Para além de algumas potencialidades anteriormente descritas, um estudo efetuado à espécie U. lactuca revelou que alguns dos seus componentes, nomeadamente, fenólicos e lipofílicos apresentavam actividade antimicrobiana. No entanto, os mesmos não são tão eficazes quando comparados aos medicamentos comerciais mais utilizados. Por outro lado, os microrganismos tendem a adquirir resistência a estes antibióticos comerciais, após algum tempo. Esta atividade antibacteriana evidenciada em compostos, por exemplo, fenólicos em varias estirpes bacterianas como Staphyloccus aureus, deveu-se ao facto de alguns destes compostos fenólicos inibirem a atividade enzimática, promoverem à desnaturação de enzimas responsáveis pela germinação destas estirpes ou até a interferência em aminoácidos envolvidos na germinação.
Ainda, alguns dos compostos presentes em U. lactuca podem prevenir o envelhecimento celular, sendo este um dos principais responsáveis em muitas doenças humanas como aterosclerose, entre outras patologias associadas ao fenómeno do envelhecimento celular.
Evidencia-se ainda o uso de extratos de U. lactuca como corante e conservante natural, sendo que tal pode ser uma alternativa ideal a conservantes e antioxidantes sintéticos como BHT e BHA, sendo estes recentemente comprovados como prejudicais à saúde, elevando assim a sua potencialidade tanto na indústria farmacêutica como alimentar.

 

Referências bibliográficas

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Foto de grupo

Alunos da disciplina de Botânica Comparada, do curso de Biologia da Universidade da Madeira sob orientação do Prof. Doutor Manfred Kaufmann

Alunos da disciplina de Botânica Comparada, do curso de Biologia da Universidade da Madeira sob orientação do Prof. Doutor Manfred Kaufmann

Ana Fernandes, Elisa Teixeira, Joana Mendonça, João Marques, José Reis , Telma Sousa (falta na fotografia)

 

 

 
Taxonomia
Império: Eukariota
Reino: Plantae
Divisão: Chlorophyta
Classe: Ulvophyceae
Ordem: Ulvales
Família: Ulvaceae
Género: Ulva
Espécie: U. lactuca Linnaeus, 1753
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